Théo Alves

10/05/2020
 
 
Para os irmãos e irmãs que eu queria abraçar agora
 
 
Eu não ousaria imaginar ingenuamente que todos nós ao redor do mundo temos passado por estes momentos de quarentena da mesma forma. Nem mesmo ousaria pensar isso sobre nós brasileiros ou até igualar a todos em cada estado ou cidade do país. Há diversos, inúmeros, cenários nesta pandemia e o confinamento tem formas muito distintas de acontecer.
 
Se pararmos para ver, por exemplo, os jogadores de futebol fazendo treinamentos divertidos em suas varandas imensas ou em quintais que ocupariam toda uma quadra de casas em uma área periférica do Brasil, não poderemos mais crer que o conceito de isolamento seja igual para todos, como a maior parte das pessoas em suas pequenas casas e apartamentos divididos com outras pessoas. Sem contar ainda os que habitualmente não entram em conta alguma, como aqueles que vivem em situação de miséria em casas apinhadas de gente até o teto e que não têm a permissão dos credores nem do governo para viver uma quarentena de fato. 
 
As fotos no Instagram e no Facebook, tomando outro exemplo, incluem isolamentos em que a reflexão, a leitura, os filmes, a música, as videochamadas com parentes e amigos – alguns de lugares muito distantes, outros distanciados pelo isolamento – apresentam a realidade de alguns brasileiros, uma quantidade significante deles. Mas e as empregadas domésticas isoladas nas casas de seus patrões – aquela nossa velha e insuperável dicotomia “casa grande e senzala”? E o impossível isolamento dos catadores de papelão e latinhas que precisam andar cada vez mais para poderem amealhar o pouco metal do sustento? As filas intermináveis que se repetem em cópias por todo o país e que são brutalmente ridicularizadas em redes tão pouco sociais pelos que não precisam estar nelas oferecem que modelo de quarentena? Trabalhadores cuja subsistência está em constante ameaça por seus empregadores e por um governo que não se importa em absolutamente nada com eles, como podem estar em quarentena?
 
Parece absurdo que o número de mortes cresça em escala geométrica enquanto o nosso senso de justiça social padeça de um nanismo deprimente. Porém, este é o jogo cruel que está posto: alunos de escola pública a quem o Ministério da Educação abandona à mercê do próprio destino; mulheres a quem qualquer chance de dignidade é negada; pessoas trans e LGBT cujos direitos foram sempre rechaçados, agora entregues à morte por um sistema que nunca as reconheceu. Por esses e tantos outros exemplos é que não temos o mínimo direito de nos dizermos surpresos que as mortes por Covid 19 atinjam com mais dureza grupos e comunidades a quem tanto relegamos direitos que lhes são legítimos.
 
Sei que, enquanto escrevo esta crônica, sentado em uma rede enquanto a madrugada anda devagar, irmãs e irmãos meus a quem respeito e estimo estão expostos, alguns pelas ruas, outros no pouco conforto de suas casas, sofrendo por inúmeras questões anteriores e talvez mais violentas e assustadoras que a Covid 19. 
 
Por isso não posso negar que neste momento sinto vergonha da sociedade que somos e acho justo que isso não me deixe dormir, mesmo sabendo que a pena da insônia é muito leve se comparada ao sofrimento dos irmãos a quem não sei como abraçar agora.