Ana Paula Campos

10/05/2020
 
NÃO EXISTE MÃE DESNATURADA
 
Não faz muito tempo eu li um artigo da Djamila Ribeiro exatamente com esse título na coluna da Folha de S. Paulo: não existe mãe desnaturada. Tratava-se de uma reflexão acerca da condição da mulher/mãe em uma sociedade capitalista. Inspirada nela e guiada por suas discussões e demais feministas negras, gostaria de contribuir minimamente com esse debate.
 
Antes de tudo, é preciso compreender que vivemos em uma sociedade estruturalmente capitalista, patriarcal, racista e homofóbica. Aceitar isso é importante porque incorpora o fator que nos leva a perceber as consequências dessa vivência. Quando nos propomos a discutir o papel da mulher e a representação da maternidade na nossa sociedade, é fundamental compreender que o racismo é estrutural e estruturante e além disso fazer o recorte, não apenas de classe, mas também de gênero. As realidades são diferentes. 
 
Marilena Chauí, em seu livro O que é ideologia?, elucida que em uma sociedade capitalista os ideais e valores são reproduzidos a partir do pensamento da “família pequeno-burguesa”. Esta, detentora do capital, transmite a mensagem para a classe operária de que o homem é o chefe da família, ainda que essa liderança seja ilusória, com fins de garantir que aquele não se perceba subjugado e explorado pela classe dominante. À mulher branca da elite recaem os cuidados com o lar e os filhos, garantindo a hegemonia de poder domiciliar do pai, além de educar e liberar seus filhos para a inserção no mercado de trabalho apenas quando forem úteis como mão-de-obra, em geral, intelectualizada. Bela, recatada e do lar...
 
Para a mulher negra periférica, no entanto, esta lógica não faz muito sentido, uma vez que ela, sendo vista como força de trabalho, inclusive por mulheres brancas da elite, não pode se dar ao luxo de escolher não trabalhar e apenas cuidar do lar. Seus filhos ficam sob os cuidados de terceiros (creche ou familiares), enquanto ela cuida dos filhos da elite. Isso quando suas crianças não trabalham para ajudar na renda familiar. A mulher preta sofre socialmente com o racismo e residencialmente com o patriarcado e o machismo, quando seus parceiros não aceitam dividir a autoridade doméstica, ainda que as despesas sejam compartilhadas. Audre Lourde, em seu ensaio intitulado O filho homem: reflexões de uma lésbica negra e feminista, é tão honesta que chega a doer. A autora revela as particularidades que ela, seu filho e sua companheira enfrentam em uma sociedade que, além de machista, é racista e homofóbica. 
 
O pensamento da “família pequeno-burguesa”, fazendo uso da igreja como ferramenta ideológica, reforça a obrigatoriedade da maternidade, ao passo que nós, muitas vezes, nos vemos obrigadas a gerar vidas ainda que não tenhamos condições financeiras e/ou emocionais para cuidar de nossas crias. Há ainda os casos das mulheres que não desejam ter filhos e são pressionadas socialmente a isso.
 
Os homens que abandonam suas parceiras seguem isentos de cobranças; inclusive, quando uma criança ou adolescente não age conforme a moral estabelecida por esta sociedade, é a mãe a primeira (e geralmente a única) a ser criticada pela falha na educação. “Cadê a mãe desse/a menino/a que não viu isso?” Em uma sociedade que criminaliza o aborto, ser mãe não é uma escolha, é uma imposição, como bem nos alerta Djamila Ribeiro. Exigem de nós que coloquemos vidas na terra, mas não nos dão as condições mínimas para exercer esta função. 
 
Para a filósofa, Suely Carneiro, “o clero católico e seus representantes civis, afirmam sua supremacia patriarcal impondo normas e os seus dogmas acima das vontades e dos direitos das mulheres.” (CARNEIRO, 2018, p. 252.) Ainda segundo a autora, os resultados de uma pesquisa divulgada pela organização Católica pelo Direito de Decidir revelam que “72% das mulheres católicas apoiam o direito de escolher de gravidas de fetos sem cérebros (anencéfalos). Os resultados de outra pesquisa realizada por professores de Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade do Rio de Janeiro (UERJ) sobre o perfil das mulheres que abortam relevam (...) que elas não são adolescentes. São mulheres católicas como a grande maioria dos brasileiros e tem relacionamentos fixos”, fazendo cair por terra estereótipos preconceituosos sobre quem interrompe a gravidez. (CARNEIRO, p.253)
 
Quando uma mãe consegue, com muito esforço, conciliar a vida entre trabalho fora de casa, trabalho doméstico, cuidado com os filhos e, em alguns casos, vida acadêmica, recebem o título lisonjeiro de guerreira. Outro termo ilusório para esconder a realidade dos fatos. Na verdade, somos sobrecarregadas e, quando temos atitudes que não são consideradas condizentes com essa representação, somos duramente cobradas e criticadas: “Mãe desnaturada!”.
 
A ferramenta ideologicamente cristã e de elite nos impõe a conduta que para eles é a válida para todas nós:
 
? Vista-se de forma respeitável! Uma mãe precisa dar exemplo de pureza.
 
? Não beba, não fume e não fale palavrão! Uma mãe precisa dar exemplo de boa conduta.
 
? Não tenha relacionamentos sexuais caso seja mãe solteira! Isso é vulgar e inapropriado.
 
E a lista de recriminações segue extensa.
 
Quando analisamos a figura materna, gosto como ela é representada nas Orixás. Iemanjá, Oxum, Iansã, Ewá e Nanã, apesar de toda sua divindade, têm atitudes tão humanas, com falhas e acertos, que nos levam a aceitar que podemos ser mães, se esse for o nosso desejo, mas que, em sendo, iremos cometer erros, vamos falhar, vamos cansar, vamos querer desistir e vamos priorizar nossas carreiras em algum momento, e tudo bem. Relatos como os de Maya Angelou em Carta à minha filha são reconfortantes e nos fazem perceber que não estamos sozinhas.
 
Ao contrário do que nos impõe o cristianismo, ser mãe não é um dom. É uma habilidade que desenvolvemos com o passar do tempo. É um eterno exercício de erros e acertos.
 
Precisamos parar de impor nossas crenças e moral para todas as outras. Aceitemos, pois, que nem todas as mulheres querem ter filhos/as. Não existe uma maneira única e correta de educá-los/as e, principalmente, não existe um modelo único de família. Ao invés de nos digladiarmos em críticas, que tal darmos as mãos e ajudarmos umas às outras em nossas dores e necessidades?