Ana Carolina Monte Procópio

11/05/2020
 
 
SER MÃE, SER FILHA
 
 
 
“0s vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida 
por si mesma.”
                                Gibran Khalil Gibran
 
A minha mãe, Graça Monte.
 
Pandemia decretada em razão do COVID-19. Pessoas isoladas, famílias separadas, amigos distantes. Uma vida distópica toma o lugar da vida que conhecíamos e tudo parece meio irreal, como se fosse uma existência paralela, um roteiro de filme de ficção científica, algo fora do que se entendia por normalidade. E aí chega o dia das Mães e, com ele, a consciência aguda da saudade que passou a fazer parte do dia-a-dia. Quem hoje não passou o dia com o coração posto em pensamento, oração, vídeos, telefonemas ou mensagens para a mãe? 
 
Fala-se muito que ser mãe é padecer no paraíso e faz parte da cultura ocidental, de raízes judaico-cristãs, equiparar a maternidade ao sacrifício, ao sofrimento. Sem romantizar, a maternidade é árdua sim; exige muita dedicação, renúncia, cuidado, superação, doação de si mesma, isso é verdade. Mas o que é que tem valor na vida que não requer de cada um grande esforço? Edulcorar ou dramatizar a maternidade parece que são duas faces de uma mesma moeda: atitudes que resultam em não encarar a maternidade real, a qual tem momentos sublimes e outros dificílimos, que nos inspira e nos faz temer, que nos alegra e também provoca dor, que nos amadurece e ensina. E assim é a vida, em todos os seus aspectos. A diferença, a meu ver, entre o exercício de ser mãe e outras experiências da vida é o grau de compromisso e, principalmente, de amor envolvidos. 
 
É o sentimento, pois, que cria uma aura em torno da maternidade e que a torna algo tão dignificado. Entre avanços e recuos e os inevitáveis erros e acertos, há um sentimento maior, transcendente, como um dom que permite gerar e cuidar de uma nova vida. Como se fosse (e é) preciso amar muito mais pra conseguir exercer essa missão. Como diz o querido Oswaldo Montenegro, “cuidar de amor exige mestria”. É um aprendizado que apenas no pleno exercício se aperfeiçoa. Amar se aprende amando. 
 
Quando se é somente filha, o entendimento da maternidade é incompleto, não se enxerga o todo. E, entre as célebres “frases de mães”, quem não se lembra de “quando você for mãe, você vai entender”? Pois é. Elas sempre têm razão. E quando as filhas se inauguram mães e recebem os pequenos seres que acabaram de chegar ao mundo, compreendem que muitas vezes farão coisas que eles também não entenderão. A história se repetirá. 
 
Acho muito preciosa a analogia que vários povos originários fazem entre o planeta Terra e a mãe. Para a antiga cultura andina, a Terra é Mãe – Pachamama. A terra generosa, fértil, acolhedora, que provê e acolhe, é equiparada à figura materna. Poderia haver imagem mais bonita que a Terra que é Mãe? 
 
Essa ideia foi expressa também pelo poeta russo Maiakovski, em seu belíssimo poema O Amor, que foi adaptado por Caetano Veloso em música de mesmo nome. No trecho final da música, Caetano, expressa em sua versão: “Ressuscita-me para que a partir de hoje, a partir de hoje, a família se transforme. E o pai seja pelo menos o Universo. E a mãe seja no mínimo a Terra. A Terra.” 
 
São os filhos que fazem uma mãe. Portanto, o primeiro agradecimento no coração vai para os pequenos seres que nos escolheram para gerá-los. Sem eles, jamais haveria uma mãe. De minha parte, obrigada, meu filho! Mas são as mães que ensinam a maternidade. E ensinam da maneira mais antiga e mais eficaz: pelo exemplo. O amor delas nos prepara pra também ser árvore que dá sombra. Obrigada, mãe. 
 
E em tempos de pandemia, quando tudo o que se quer é poder abraçar e estar junto das pessoas que nos são mais caras, não há vídeochamadas, gravações de mensagens ou encontros virtuais que resolvam. 
 
Ser mãe, como ser filha, é ser saudade.