Bia Crispim

15/05/2020
 
HÁ DIAS OBSCUROS
 
(Remexendo em meus escritos encontrei um texto que resolvi partilhar. Primeiramente pela coincidência com a maneira em que me encontro e que venho me sentindo, e também porque recebi essa semana algumas manifestações de EU-TE-AMO’s virtuais e através de algumas atitudes presenciais que me deram, aliás, me dão a certeza de que uma mulher TRANS pode se dar ao luxo de amar e ser amada e de viver quantas e tantas relações amorosas assim o desejar. Escrito por mim nos anos de 2012, o texto passou por algumas alterações para essa coluna. E apesar de ter sido produzido há 8 anos, ele revela meu hoje.)
 
Há dias em que o dia não faz sentido... 
 
Só a escuridão parece clarear e esquentar nossos pensamentos e angústias. Sinto tristeza e fome... Desconsolo e carência... 
 
Falta de... Não sei!
 
Apesar de ter recebido quatro EU-TE-AMOS, de pessoas diferentes,  por meios diferentes, de  relações diferentes e em circunstâncias diferentes ... Tudo continuou igual.
 
TE AMO UM TANTÃO ASSIM, disse-me a primeira pessoa. 
 
Como reforço de amor e amizade involuntários, que brota de momentos em que a mente nos joga um sorriso no rosto e uma saudade no coração;
 
AMO VOCÊ DEMAIS, MINHA DEUSA... Desabafo e elogio sincero de quem fez pra mim um templo e um altar. E ainda o faz.
 
AMO VC - Linguagem moderna de quem me ama virtualmente e mesmo com meus defeitos não conhecidos ainda insiste em dizê-lo.
 
TE AMO, LEMBRE-SE DISSO, disse aquele que me fez Afrodite em seus poemas e que me tem como sua.
 
Mas nenhum dos AMORES me pareceu quente, nenhum afastou as sombras, nenhum me fez tremer e me jogar num abismo de EMOÇÕES sem fim. Nenhum iluminou meu ser como um sol. 
 
O carro de Apolo não me transportou das nuvens escuras que me cercavam, que me cercam hoje. (Nix, Calígena, deusas presentes.)
 
É. Há dias obscuros. 
 
Tão escuros que os EU-TE-AMOS perdem-se no enigma da ausência da LUZ. 
 
Olhos cegos tornam os ouvidos surdos e o coração inerte. Sinto compaixão de mim mesma. 
 
Dia sem sentido, sem VIDA... Dia escuro e brumoso, em que os poetas mais lúgubres, mais pessimistas, mais intimistas me chamam para o clã.
 
Aceitam-me para ser parte dos obscuros, dos Byronianos, dos Anjos e dos Azevedos. 
 
Chamam-me para o banquete Romântico-Simbolista que se apodera de mim.
 
E o que eu só queria era o CALOR, a chama, o EU-TE-AMO que me efervesceria, que me seria combustível, que me afogueariam as carnes por dentro e por fora e me mostraria o brilho de estar e me sentir VIVA, bem viva. Feito Fênix renovada!
 
Luz que faria do dia, um SOL; dos tenebrosos pensamentos, dias de PRIMAVERA; do que me corrói, em combustão imensa e intensa de SENTIMENTOS.
 
Há dias obscuros, sim senhor! Há dias muito obscuros, sim senhora!
 
E eis que hoje é um destes!
 
Estou só, estou no escuro, estou náufraga e isolada. Perdi-me em mim mesma e não encontro a saída. 
 
Tenho medo que meus MEDOS me devorem. Mas preciso enfrentá-los. 
 
Não devo pensar nos EU-TE-AMOS que meus ouvidos receberam sem que meu coração percebesse. Sem que ele os entendesse.
 
Devo ouvir e pensar nos CORAÇÕES de onde eles partiram. De quatro amores, quatro pessoas... Quatro situações, quatro meios.
 
Quem disse, falou-me com AMOR, sincero e verdadeiro. Bem o sei!
 
Preciso inundar-me com isso, e encher-me a ponto de juntar TODAS essas pessoas em UMA, para que o FOGO me brote nas veias e acenda-me como CHAMA, como AMOR, como ALEGRIA, como ENERGIA e VIDA de que sei que sou feita.