Théo Alves

17/05/2020
 
Viver sempre também cansa
 
 
Às vezes é preciso colocar a vida real em modo de espera: desligar os noticiários, sair das redes sociais, usar o modo avião do celular e abster-se desse mundo real, palpável e cheio de acontecimentos por algum tempo. 
 
O poeta português José Gomes Ferreira escreveu sabiamente que “viver sempre também cansa” muito tempo antes de falarmos em Corona vírus, pandemia ou quarentena. Eu devo ter publicado esses versos de Gomes Ferreira uma centena de vezes em minhas redes sociais, afinal era o meu jeito de mandar um recado ao mundo e a mim mesmo de que a vida com alguma frequência nos drena qualquer possibilidade de estar vivo, por mais que isso pareça um contrassenso.
 
Não digo, entretanto, que seja preciso alienar-se do mundo. Na verdade, pôr em pausa a vida real só é possível aos que se recusam à alienação. Os alienados, os que se limitam meramente à sobrevivência, não precisam desse tempo, pois para eles viver é, sobretudo, negar-se à vida. Já que a subsistência, a vida sem fruição, não condiz com aquilo em que evoluímos e pudemos construir de válido e bonito, o que nos diferencia positivamente dos outros animais.
 
Mas é do excesso de realidade que precisamos nos defender de vez em quando. Não é preciso ouvir o William Bonner todos os dias, assim como faz mal ouvir o que diz o presidente, o desdém com que nos trata, justamente a nós, aqueles a quem deveria servir. Estamos cercados sempre por notícias, muitas delas falsas, e precisamos pensar sobre elas, entendê-las, interpretá-las. No entanto, precisamos respeitar em nós o limite do humano, a linha que nos organiza entre pessoas bem informadas e pessoas adoecidas pelo mundo.
 
Por isso, quando se precisa cessar esse movimento imparável do mundo, convém ver um filme que nos permita sentir mais que pensar: as boas comédias francesas que fogem do riso bobo e gratuito, cheias de alguma beleza humana imprevisível, por exemplo. Um disco também é possível: ouvir Miles Davis soprar notas pelo espaço em organizações improváveis e lindas tem muito mais a ver com o inefável do que com o real. É possível caminhar sobre as nuvens também através da voz melodiosa do jovem pernambucano Martins, cantando versos como “tua voz ornamentava o meu juízo”. 
 
Contrariar o mundo com um livro é também audacioso. Tratar a vida real com doses cavalares da palavra de Valter Hugo Mãe é infalível: perdi a conta de quantas vezes já me emocionei lendo as páginas de seu “A Desumanização” ou com as engrenagens tão bem azeitadas de sua “Máquina de Fazer Espanhóis”. E uma coisa precisa estar clara: ver a realidade pelas lentes da literatura é também desligar-se da vida meramente real. Basta ler os contos de “Os Dias Antes de Nenhum”, de Ricardo Terto, para perceber isso. Assim como é possível acreditar em outra humanidade lendo Ailton Krenak e seus “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” e “O Amanhã Não Está à Venda”.
 
Também é possível estancar a máquina de moer gente que é o mundo real apenas dormindo; abrindo uma cerveja enquanto se está deitado em uma rede; fazendo pão, que milagrosamente toma forma em nossas mãos até ganhar dourados e perfumes no forno. Passar um café também desliga os mecanismos do mundo momentaneamente. Ver os filhos crescerem lentamente ou olhar o mundo pela janela, parado, tranquilo, imóvel como se o Davi de Michelangelo pudesse simplesmente puxar uma cadeira e sentar-se por umas horas.
 
Fato é que “viver sempre também cansa”, seja em tempos de quarentena ou não. Por isso precisamos, vez ou outra, tomar as rédeas da vida real e dizer não a outro verso do mesmo poema de José Gomes Ferreira: “e obrigam-me a viver até a morte!”