Ana Paula Campos

18/05/2020
 
A HUMANIDADE É DESUMANA 
 
 
Adoro as músicas de Renato Russo. Passei toda a minha adolescência ouvindo as letras e pensando sobre elas. Esses dias, ouvi a canção Quando o sol bater na janela do seu quarto, me levando a atentar para a seguinte estrofe:
 
A humanidade é desumana 
Mas ainda temos chance
O sol nasce pra todos
Só não sabe quem não quer
 
Quando alguém tem uma atitude cruel, como o presidente e seus eleitores diante da pandemia do Corona vírus, dizemos que essas pessoas são desumanas. Como eu não sigo a linha de raciocínio de que somos de determinada maneira por natureza, uma vez que ações são moldadas por influências culturais e sociais, não posso dizer que somos bons ou ruins por natureza. Mas o fato é que todos/as nós reagimos aos acontecimentos de forma positiva ou negativa, tomando como referência os padrões social e geográfico em que vivemos.
 
Sendo assim, todos/as somos passíveis de praticar ações que não sejam bem vistas pela nossa sociedade, e isso sim é inerente ao ser humano. Não deixamos de ser humanos porque praticamos algo negativo. 
 
Vejamos. É comum diante do atual governo as pessoas criticarem o presidente por sua má conduta da seguinte forma:
 
“É louco”
“É retardado” 
“É um monstr”
“É um moleque”
 
Vamos por partes. Ser louco significa que a pessoa não está de posse das suas faculdades mentais, portanto, não se responsabiliza pelo que faz. Ser retardado é um termo pejorativo para quem tem deficiência mental. Essa pessoa também não é totalmente consciente dos seus atos. Monstro é um personagem da literatura que apresenta atitudes negativas e repulsivas dos humanos, por sinal. Lembremos que por muitas décadas as pessoas com deficiência ou simplesmente pessoas que eram dotadas de características diferentes dos demais, eram expostas em apresentações circenses em espetáculos chamados “O circo dos horrores”. Ou seja, não precisava ser necessariamente ruim para ser um monstro. Bastava estar fora dos padrões. 
 
Já o termo “moleque” é corriqueiramente mais usado no masculino. Ora, vivemos numa sociedade patriarcal e machista que tenta justificar a crueldade masculina como sendo inerente à falta de maturidade. Seja como for, quando alguém é ruim, está sendo absolutamente humano!
 
Essa afirmação me fez pensar em outra coisa. Geralmente as pessoas dizem que sou tão boa que até pareço uma cristã. Historicamente ser bom está associado a ser cristão/a. Quando queremos elogiar a benevolência de alguém não dizemos que ele/a parece candomblecista. Ao contrário. Estes são “macumbeiros” ou “catimbozeiros”. 
 
Devido à nossa condição humana, somos capazes de atitudes nem sempre benéficas para todos/as. Precisamos estar atentos e, claro, não podemos pensar o indivíduo fora do recorte de classe, raça, gênero e opção religiosa, porque, infelizmente, isso também influencia nosso crivo de bondade ou de maldade.
 
Mas voltando para a canção. Quando Renato Russo diz: “O sol nasce pra todos, só não sabe quem não quer...”, faz parecer que todos/as nós temos as mesmas oportunidades e, quando não temos êxito na vida, é por falta de esforço próprio, o que as evidências mostram não ser verdade. O simples fato de uma pessoa seguir uma religião de matriz africana já a torna socialmente uma pessoa “perigosa” ou “má” aos olhos preconceituosos. 
 
Então, Renato, o sol não nasce para todos/as porque muitos/as vivem à sombra do preconceito e do racismo e não se beneficiam do seu brilho. Sigo fã da Legião Urbana, mas não perco a minha capacidade de pensar com criticidade. 
 
E quanto ao presidente? É genocida, mesmo!