Renisse Ordine

21/05/2020
 
Ruth Guimarães pelo mundo malazartiano do caipira
 
 
Como escritora, Ruth Guimarães dedicou a vida para doar a literatura que vivia em si.
 
Como pesquisadora, ela trouxe a figura do homem caipira para o primeiro plano dos seus estudos. 
 
Através de suas observações e leituras, ela comprova com as suas obras genuinamente regionalistas que o caipira é o guardião da cultura e do folclore. Em sua literatura está o homem simples, do interior, que conta os acontecimentos da vida, sem o uso de palavras recheadas e sem versos adornados.
 
O uso da linguagem regional, o dialeto caipira, é o vocabulário utilizado pela escritora, apesar de sua formação intelectual. Um fator de admiração em Ruth Guimarães, que não abandonou a sua natureza raiz e tampouco abriu mão de sua formação como professora, pesquisadora e escritora. Ela soube unir a simplicidade com a inteligência, assim como unificou a literatura e a pesquisa do homem do povo. Surgindo, deste modo, grandes obras como Água Funda e Contos de cidadezinha.
 
Sobre o homem simples ela pesquisou e a ele os seus escritos se direcionaram. Tamanha a sua identificação com essa gente guardiã da cultura, dos contos, dos causos e da prosa tranquila. E assim ela, que gostava de conversar tendo o pé firme nessa terra valeparaibana com a curiosidade dos  costumes pelo mundo afora. 
 
Em seu livro “Calidoscópio A Saga de Pedro Malazarte”, Ruth Guimarães faz um passeio pelo mundo malazartiano e registra o efeito dessa lenda universal, incorporadas nas narrativas da gente simples, que habita os cantos da região do Vale do Paraíba.  
 
O intuito sobre o estudo do Malazarte é a personificação do mito e a representação real da sociedade que suas histórias reproduzem. 
 
            “Gente de unha e dente, de bunda atrás e nariz pra frente”. 
 
O universo malazartiano é representado através de contos, relatos das suas artimanhas para conseguir se livrar de pessoas e situações desagradáveis, em situações que evidenciam o comportamento social diante das mazelas cotidiana para a sobrevivência do homem da terra. Como indica a autora, Pedro Malazarte é a personificação do brasileiro de origem humilde, em sua relação desigual entre patrão e empregado e com a família, onde é cada um por si. Situações em que ele é colocado em situação de inferioridade, de falta ou excesso de trabalho, mas com toda a sua esperança e o jeito relaxado, procura sempre se dar bem. 
 
É um mundo estranho, que nos obriga a reconhecer, pela aceitação, pela aprovação desse mundo, a nossa vocação para a malandragem, ou, pelo menos, a nossa cumplicidade. Começa com o sonho do brasileiro de enriquecer rapidamente e sem trabalho: loteria, carteado, garimpo, jogo do bicho, carnê- do –baú; e, num plano ainda mais marginalizado: conto-do-vigário, fraude, furto, estelionato, burlas e chantagem. 
 
Tantas histórias foram criadas e repassadas pela tradição oral, que Malazarte se tornou cidadão do mundo. E faz parte da nossa realidade, incorporando-se também às características do brasileiro, o jeito malandro e cheio de prosa. 
 
Para quem valoriza o povo, é sábio pesquisar sobre o que o povo fala, para mostrar quem ele é.  
 
Ruth Guimarães é um instrumento que nos orienta pelas histórias do vale e do mundo, conectando as gerações do passado, do presente e do futuro às raízes. Para que nunca nos percamos nessa imensidão de terra.