Ana Paula Campos

25/05/2020
 
PENSANDO NO PÓS-PANDEMIA NA SALA DE ESTAR
 
 
Esta não foi uma semana fácil. Vejo grande parte da minha timeline ser tomada pela angústia da classe média/elite que se queixa do tédio, da falta de criatividade, de não conseguir ler e escrever em tempos de isolamento social. Boa parte dessas pessoas está debatendo e refletindo a despeito de sairmos melhores ou piores dessa pandemia. E enquanto o papo rola na sala de estar, no terreiro o povo passa fome. São pessoas de periferia que se aglomeram em filas quilométricas em busca de um auxílio emergencial mínimo, que demora semanas para ser liberado.
 
Um homem negro escravizado corre pela rua sem roupa, sem dignidade, sem liberdade. “Não liguem! É só mais um bêbado.” E a escravidão segue sendo justificada. Pessoas brancas trancaram suas portas, seus olhos e seus ouvidos. “O problema não é meu.”
 
Um jovem negro de 14 anos que brincava de sonhar é morto pela polícia. Mais uma bala perdida a encontrar um corpo negro. Um sonho a menos e uma família a mais destruída pelo racismo. 
 
Nos dois casos não vai haver investigação. Não vai haver punição. João Pedro, assim como Ágatha, será esquecido. Comoção no Brasil dura pouco. É só o tempo do post rolar pela sua timeline. A cada 23 minutos uma mãe perde um/uma filho/a negro/a neste país. Em um país majoritariamente cristão e que prega tanto amor (com exceção de quem apoia a tortura), fico pensando que esse discurso altruísta tem cor.
 
Portas fechadas! Quem está na sala de estar finge não ouvir os gritos dos terreiros, dos guetos, da favela, dos quilombos... A TV está ligada. Glória Maria desabafa sua dor.
“Mas eu não sou racista. Olha só, eu uso trança nagô. Estou na moda.”
 
A branquitude gosta de negrxs, mas apenas para consumir nossa cultura. A comoção pelo povo negro até vem, mas apenas quando a narrativa está nos livros. Gostam da música, mas não querem pagar pelo cover artístico. “Não é problema meu se músicos e demais artistas estão privados de ganhar por sua arte neste momento.”
 
“R$ 130,00 por uma faxina? Muito caro! Estamos vivendo um momento de crise. Vou reduzir sua diária pela metade.” Sim, porque empregadas domésticas não merecem mais que isso para lavar um banheiro. Ana que se vire!
 
Mas são apenas corpos negros. Amanhã essa mesma classe média/elite vai continuar twitando que está morrendo de tédio porque não consegue escrever, enquanto o povo preto segue morrendo apenas por ser preto.
 
É a necropolítica: policiais – negros em sua maioria – matam seu próprio povo movidos por uma falsa ilusão de poder. Nossa raça segue sendo exterminada e xs brancxs nem sequer precisam sujar as mãos para isso. Achile Mbembe me contou. Um homem negro.
 
É o genocídio do povo negro que segue seu curso de extermínio, cancelando nossos corpos, cultura e aniquilando nosso psicológico. Abdias Nascimento me contou. Um homem negro.
 
Mas a branquitude não ouviu. Ela não liga. Então veio Anitta e falou de política. Veio Felipe Neto e falou sobre fascismo e privilégios de raça, classe e gênero. Que bom! A partir do lugar de fala deles, trouxeram à tona questões urgentes. Mas eu pergunto: vocês ouviram?
 
Na sala de estar, a branquitude discute virtualmente como será o pós-pandemia, enquanto nós, povo preto, discutimos quando venceremos o processo de pós-escravidão. O povo negro periférico segue tentando sobreviver.
 
Se você votou em Bolsonaro, é cumplice!
 
Se você silencia para o debate, é cumplice!
 
A cada 23 minutos morre um jovem negro neste país e a culpa é sua!