Arthur Dutra

27/05/2020
 
Inovação, tecnologia e saúde: Bons remédios para Natal
 
Quais os caminhos de transformação das cidades forçados pela pandemia do coronavírus? Esta é a pergunta que estudiosos do mundo todo têm em mente hoje, e é a partir dela que são feitos os prognósticos para o futuro. Neste momento, porém, é difícil dar respostas baseadas em fundamentos realmente sólidos, com alto grau de certeza, e tudo termina mais no campo da aposta. De toda forma, é preciso refletir sobre isso, mesmo que tenhamos que mudar de cavalo ao longo da corrida. 
 
Uma das apostas que faço para Natal, que não é de minha autoria e foi inspirada no economista e professor de Harvard Edward L. Glaeser, é no sentido do fortalecimento do sistema de saúde como um diferencial para dar confiança e segurança para o cidadão, empresas e visitantes. Já falei disso em outras oportunidades, e cada vez que leio mais e mais análises, só reforço essa percepção. Ademais, ela me dá um certo conforto, visto que investir no incremento do sistema de saúde pode não dar esse diferencial para Natal na disputa com outras cidades, mas ficará a estrutura para ser usada por nós, e isso já é uma grande vantagem. Fiquemos, portanto, com essa concepção, e vamos tentar aprofundá-la em harmonia com outro tipo de aposta que também deve ser feita. A aposta na tecnologia e na inovação.
 
Ao longo desta semana conversei com diversos atores do teatro da tecnologia e da inovação de Natal em busca de informações sobre o que está sendo feito e criado especificamente no ramo da saúde. Aliás, para usar o palavreado correto, o que está sendo feito na linha das healthtechs. E para minha grata surpresa, em vários dos ecossistemas existentes aqui em Natal, como o Metrópole Digital, o Jerimum Valley, a Incubadora Catavento, dentre outros, temos muitas iniciativas já rodando nesta linha. Algumas são voltadas para o mercado de clínicas médicas, outras para gestão hospitalar, e outras ainda para educação em saúde e para o próprio paciente fazer seu monitoramento, e não para por aí. Temos, portanto, as mentes qualificadas e talentosas necessárias para avançarmos neste mundo novo e cheio de possibilidades, pois passaremos a nos preocupar mais com nossa saúde. 
 
Os empreendedores estão neste momento fazendo a leitura das novas demandas que surgirão neste e noutros segmentos e, como sempre, inovarão de forma rápida para atender às novas necessidades das pessoas. Mas e os governos estadual e municipal? A julgar pela forma como estão enfrentando a pandemia, é certo que chegarão atrasados nesta corrida, e ainda é bem provável que atrapalhem. Se esses atores não colaborarem, quem será penalizado é o cidadão humilde que depende totalmente do precário poder público para ter acesso ao serviço de saúde, pois o cidadão em melhores condições econômicas poderá contratar os novos serviços que virão por aí. Essa, digamos, injustiça, não favorecerá a cidade como um tudo e nem gerará aquele efeito pretendido, que seria o nosso diferencial, com a melhoria geral do sistema de saúde local. 
 
É justamente neste ponto em que saúde, tecnologia e inovação precisam romper as barreiras da burocracia e da ineficiência estatal para concretizarem essa aposta que reputo altamente promissora para Natal no futuro. Para isso, é preciso primeiro reconhecer que isso é possível e benéfico. Parece simples, mas não é. Depois, criar o ambiente favorável para que a inovação seja realmente possível dentro do sistema de saúde municipal, promovida inclusive por quem já está lá dentro. Já falamos disso em outras oportunidades também, e trata-se da cultura da inovação. 
 
Neste momento, quero registrar algo que não pode jamais ser esquecido: um sistema de saúde que imagino não se faz apenas com estruturas materiais e pessoais, como hospitais, equipamentos, profissionais qualificados, medicamentos disponíveis etc. É preciso ir além, e aqui é onde entra a inovação e a tecnologia, mais precisamente no aperfeiçoamento do relacionamento da parte material/pessoal com o usuário, com o cidadão, de modo que ele possa se comunicar e reportar sua situação de forma fácil, que tenha confiança de que será prontamente atendido quando adoecer, e que quando for atendido seu quadro de saúde seja conhecido pelos profissionais, que então lhe darão o tratamento adequado. 
 
É utópico? Talvez. Fácil? De jeito nenhum. Mas é o que devemos perseguir. E há ferramentas e inteligências capazes de fazerem isso aqui mesmo na nossa cidade. Mas precisamos começar! É preciso abrir as portas para os talentos, ir ao seu encontro se necessário for. Apostar neles, ouvir o que têm a dizer, dar-lhes incentivos e financiamento. Uma boa forma de começar a fazer isso é criar um Laboratório de Inovação na estrutura municipal e fazer com que ela seja essa porta entrada, não só para ideias para a saúde, mas para os demais serviços públicos também. Isso tem várias vantagens: evita que as inteligências continuem indo embora em busca de melhores oportunidades em outra cidade, e faz com que Natal finalmente cultive a imagem, desta vez real!, de ser uma cidade empreendedora, inovadora, saudável, inteligente, e ao invés de expulsar seus filhos, atraia mais e mais investimentos, visitantes e gente talentosa e empreendedora. 
 
Tudo isso custará dinheiro, claro, mas vale a pena o investimento, seja ele público ou privado. É ganho para o inovador, ganho para o gestor, ganho para o investidor, ganho para o cidadão e, claro, um ganho enorme para Natal, que precisa, e muito!, não só voltar a ser aquela capital que acolhia as pessoas e as fazia felizes e seguras por viverem aqui, mas também poder entras no mapa das grandes, ricas e generosas cidades do Brasil e do mundo.