Bia Crispim

29/05/2020
 
Posso te contar uma história?
 
 
 
Posso te contar uma história? (Ou seriam histórias?). Acho que devo. Não tenho mais medo, nem porque escondê-las. São fragmentos, são diálogos espaços, são memórias...
 
Era aula de educação física. Eu tinha uns dez anos. E um grito esfriou minha espinha:
 
-Não é homem, não? – ecoando por toda a quadra da escola.
 
Os risos dos colegas me afundaram num fosso escuro e fechado, onde só me cabia.
 
E lá de dentro eu respondi: - Sou não, professor.
 
Eu tinha culpa de não ser igual aos outros meninos, mas eu não era igual a eles e nem queria ser.
 
(...)
 
Estávamos brincando na rua. Vi quando seu pai o chamou. 
 
Os olhos do meu amigo lacrimejavam. Os do pai flechavam-me. Parece que a brincadeira havia acabado.
 
Mas, inocentemente, encontramo-nos e brincamos juntos na noite seguinte.
 
E que choque tive(mos) quando, entrando no quarto para pegar um brinquedo qualquer, faixas de papel contínuo estampavam frases de preconceito e um convite expresso e direto para eu me retirar daquela casa, da vida do meu amigo. 
 
Eu era uma criança. E tive de engolir aquilo como um remédio amargo, porque era minha culpa ser diferente.
 
(...)
 
Era um retiro espiritual. Eu tinha 12 anos.
 
E na noite de sábado, um dia antes de deixarmos o local, fui acordada com um homem tapando minha boca, me sussurrando ameaças e gemidos, enquanto baixava minha roupa de dormir. Eu estava sendo estuprada ao lado de mais dois adolescentes que dividiam o quarto comigo naquele retiro. Um deles era filho do “cidadão de bem” que me abusava. Ao lado desse quarto, meu pai dormia, sem nada saber. (Ele fazia parte da equipe de casais que organizara o retiro de jovens e até hoje ele continua não sabendo daquela noite. Só há pouco tempo que contei a minha mãe).
 
Eu era o “menino” culpado por aquilo que estava acontecendo comigo, ninguém podia saber e me calei por anos.
 
(...)
 
Morava com meu padrinho. Tinha 17 anos.
 
Havia um churrasco na casa. Eu me divertia com a visita de amigos do interior que ali estavam. Tinham vindo me ver.
 
Meu padrinho, talvez bêbado (pois só assim ele teria a coragem de falar comigo), me convidou para irmos de carro comprar carvão. Só nós dois. Depois de umas voltas no quarteirão, paramos em frente à casa.
 
Entrei, peguei uma pochete, chorei com meus amigos, fui pra rodoviária chorando e me atirei no primeiro ônibus para o interior. Para a casa dos meus pais.
 
- Você só pode ter feito alguma coisa!? – Disse meu pai, acusando-me de um “delito”.
 
Gritei, chorando: - Eu sou gay (era assim que eu me entendia naquela época).
 
O silêncio se instalou. Ele não estava preparado para aquela revelação. Ninguém estava. Nem eu. Minha mente era um caos. Eu entendia que a culpa de tudo que estava acontecendo era somente minha e eu não tinha como me defender, nem sabia a quem pedir ajuda. A vergonha de SER, me inundava.
 
(...)
 
A nova diretora (religiosa) da escola em que eu trabalhava havia dois anos, me chama após o último dia de aula. Sentamos em um corredor.
 
- Você não faz o perfil para ensinar nessa escola. – Foi a fala da diretora.
 
Entendi o recado. Mas já havia apanhado o suficiente para saber dar uma resposta desaforada. (Muito tempo levando pedradas de todo tipo encouraçou-me).
 
- Realmente. Não preciso usar um hábito para esconder quem eu sou.
 
E saí. (Na verdade, minha resposta foi bem mais explosiva e menos polida).
 
Mas, mesmo dando a resposta que eu dei, me sentia culpada de estar sendo demitida.
 
... memórias... nem tão memoráveis assim. 
 
Por que estou te contando essas histórias?! Para que todos se deem conta de que o preconceito, a exclusão, os abusos sofridos durante uma vida inteira, a dor que isso acarreta e todo sentimento de culpa que nos é imposto por não sermos “iguais” aos padrões impostos revelam-se nas nossas vidas (nas vidas das pessoas LGBTIA+), nos impactam, nos ferem e nos deixam cicatrizes antes e primeiramente do que a tomada de consciência e o encontro com nossa própria identidade. 
 
E porque hoje, no final dessa história (dessas histórias/memórias), eu me redimo de toda minha culpa.
 
A culpa não é minha. Nunca foi. A culpa é sua!