Alfredo Neves

02/06/2020
 
Angelo Girotto e as cenas de Ingmar Bergman na arte
 
 
Angelo Girotto, filho de Almeri Gazziero e Elias Girotto. 36 anos. Jornalista com mestrado em Ciências Sociais, tendo como tema da sua dissertação A Voz das Ruas e a Rearticulação da Ideologia. Atualmente é doutorando em Ciências sociais na UFRN. Desde cedo teve predileção pelas artes, no entanto, começou a pintar com afinco a partir de 2018. Foi aluno do mestre Francisco Eduardo. Publicou 3 livros, com destaque para o romance Uma Alcatra Não Tem história (2016), Ronda Crônica e O Espetáculo do Mundo, ambos de 2015. Editor de revistas e crítico de cinema. Nascido em Xanxerê-SC.
 
Girotto já tem nome de artista, conheci-o, chamando-o de Giotto, e até imaginava ser o seu nome o mesmo do erudito e renomado pintor renascentista italiano nascido em 1267 e falecido em 1337, pintor das famosas telas da Lamentação pela Morte de Cristo (1303-1306) e Morte do Cavaleiro de Celano (1298). O que há de interação entre os dois?  Pode-se se dizer quase nada, mas o fato de um ter feito parte das bases na Idade Média do aparecimento de uma linguagem por imagens baseadas nos princípios da imitação e da racionalidade visual, permitindo, assim, estabelecer as bases da cultura artística moderna (Sproccati, 2000, p.11) e o outro, o Girotto, do qual trato neste artigo, e que também carrega Angelo no nome, tem muitas das suas pinturas expressionistas advindas do seu imaginário pessoal e outras figurativistas baseadas no fantástico mundo cenográfico dos filmes do sueco Ingmar Bergman (1918 – 2007), tendo sido Bergman produtor, diretor, escritor e com vastas realizações no cinema e na televisão.
 
Angelo Girotto é bisneto descendentes italianos, talvez por isso a afinidade tão familiar de nomes da pintura renascentista e medieva. Girotto chegou em Natal em 1996, de lá para cá tem participado efetivamente de vários movimentos sociais e eventos culturais na capital do estado. Simbolicamente, pela inquietude, pelo fazer ilimitado e da necessidade de não ficar parado, Angelo Girotto tem contribuído para a construção de uma era que todos nós almejamos e reivindicamos no campo “multi-artístico” da capital e no estado do Rio Grande do Norte. Os fazeres, os saberes e as ocupações para a construção e manutenção das modernas e atuais entidades e personalidades intelectuais e artísticas, passam pelo reconhecimento desses novos “estranhos” na cultura local
 
 Se o sobrenome relembra um grande artista renascentista, o nome Angelo também tem essa força nas artes, não só os dos dias  atuais, como o do baiano Ângelo Roberto (1938 – 2018), ou do escultor Angelo Venosa (1954 - ),  mas também os daqueles tempos de escuridão e glória, como Michelangelo (1475 – 1564), ou simplesmente: Miguel Angelo, o imortalizado pintor do teto da Capela Cistina e da escultura da Pietá, vivente que foi dos áureos momentos do Renascimento e do Maneirismo na Europa no Sec. XVI e início do XVII. Ou outro Angelo famoso, Caravaggio (1571 – 1610). Caravaggio era a cidade em que o artista Barroco nasceu, mas o seu nome completo era: Michelangelo Merisi, pintor de A Medusa (1597), Captura de Cristo (1602) e A Conversão de Paulo em Damasco (1601). No entanto, Angelo Girotto, apesar da admiração por diversos pintores, faz questão de enfatizar o seu grande apreço pelo pintor que nasceu em Restinga Seca, cidade do Rio Grande do Sul, chamado Iberê Camargo (1914 – 1994), Iberê tem nas suas obras a pintura, o guache, o desenho e as gravuras. Pode-se dizer que Iberê Camargo é um dos grandes pintores brasileiros do século passado, tendo iniciado no começo da carreira com a pintura figurativista, e logo depois indo para o Abstrato. As suas principais telas, a destacar, por exemplo, como estilos bem transitórios, como o” Autorretrato” de 1943 e o de 1984, onde o artista se insere renovado num novo estilo artístico, ou como em “Em Tensão” (1969) e “Fase Sombria” (1991). 
 
Sobre as telas de Angelo Girotto, de acordo com o que escrevi mais acima, são produzidas e advindas do seu olhar crítico sobre cinema. Dessa forma e, da paixão pelos filmes de Ernst Ingmar Bergman, optou em retratar em várias das suas telas, personagens dos filmes do diretor sueco. Bergman Dirigiu centenas de filmes e peças teatrais. Dentre as mais destacadas películas podemos citar: “O Sétimo Selo” (1957), “Por Trás da Máscara” (1966), “Persona” (1966), “A Hora do Lobo” (1968), “Morangos Silvestres” (1957), “Sonata de Outono (1978), “O Silêncio” (1963), e muitos outros.
 
Das Obras de Girotto, escolhidas a partir da sua percepção pictórica e da importância dos personagens nos filmes de Bergman, carregadas de sensibilidade, da iluminura moderna onde perpassam o seu sentir plástico para as telas, retratadas pelo seu olhar cinéfilo e crítico, destaco: “Persona” , 50 cm  x 40 cm , óleo sobre tela; “O Sétimo Selo”, 80 cm x 50 cm; “A Hora do Lobo” 50 cm  x 40 cm”, e outras com a técnica de Carvão e óleo sobre tela, Tinta China, Bico de Pena e variadas telas para a nossa futura admiração em exposições programadas para a nossa cidade pós pandemia. 
 
Girotto não se detém apenas em fazer retratos, um movimento estilístico tão antigo quando da passagem do homem desde os primórdios pela terra, ele faz arte, e a sua arte é admirável no sentido de dizer que vem do seu imaginário colocando diante de nós um personagem que rasga as telas e abraça os seus pinceis untados de cores para habitarem outro mundo numa nova tela estática e multicor. Desde a Grécia, passando por Roma, Egito, cunhando moedas e moldando estátuas de faraós e líderes que os retratos nitidamente tem escrito a nossa saga. Não há complexidade. Estamos diante de uma técnica e estilo apurados. 
 
Por fim, as suas obras transcendem o mito de Bergman.  As demais telas que surgem do seu fértil ato de produzir são obras que merecem toda a nossa admiração. Há um Ângelo Girotto que se apresenta para os artistas do Rio Grande do Norte, uma novidade para os dias futuros que se escasseiam de artistas com qualidade.  Vamos, então, abraça-lo com a sua arte que veio para estremecer esse tão caótico mundo.