Bia Crispim

05/06/2020
 
Sobrenormas, transgressões e sofrimentos
 
 
Segundo a socióloga Berenice Bento, o gênero está fundado na heteronormatividade, perpetuado por meio de várias repetições das normas de gênero impostas pela sociedade – homens têm que se comportar assim, mulheres têm que se comportar de outra forma. E é tão intensa e eficaz a maneira como essas repetições se dão que passamos a acreditar que o binarismo dos corpos é natural e passamos a acreditar cegamente que homem tem pênis, mulher tem vagina, essas são suas essências, e ponto final.
 
Da maneira como isso nos é apresentado, parece existir uma regra: homem e mulher, masculino e feminino, pênis e vagina. Porém toda regra possui uma exceção, e essas são, justamente, as pessoas transexuais, cujas experiências identitárias são marcadas pelo conflito com as normas de gênero existentes e impostas. Segundo Flávia Almeida, bacharela em Direito pela Universidade Federal do Pará, pessoas transgêneros “São pessoas que ao nascer com determinado órgão sexual receberam um determinado rótulo que as definiam como homem ou mulher; todavia, são pessoas que não se adequam a esta imposição, tendo a necessidade de transicionar para algo que lhes seja mais adequado, seja outro gênero, uma combinação deles ou nenhum.” 
 
Percebemos que a imposição de gêneros se perpetua controlando corpos e comportamentos, num regime terrorista, para amedrontar quem fuja da norma. Desde cedo, enfrentamos uma vida de conflitos, pois quando fugimos dessa regra, somos rechaçadas, violentadas, até que “voltemos” a nos comportar aos moldes ditos “naturais”. Essa estrutura opressora, ensinada desde a infância, está presente na família, nas escolas, nas igrejas, nos espaços públicos, em geral. 
 
As pessoas transexuais, na maioria das vezes, começando pela família, “sofrem diversas formas de punição, entre castigos e agressões para não serem o que são. “Menino não usa isso”, “Para de ser viadinho”, “Menina não brinca com essas coisas”, “Você tem que aprender a ser homem/mulher!”, atos de violência reiterados que muitas vezes culminam na expulsão do lar.”, diz Flávia Almeida.
 
Ao adentrarmos na escola, vemos outro espaço de normatização, definido em coisas de meninos e meninas, onde não se pode ser diferente. “A diferença, a transgressão às normas de gênero, é punida com violência verbal, psicológica, física, por parte dos docentes, corpo diretor e dos próprios alunos. Por isso temos um índice de 73% de evasão escolar por pessoas trans, pois muitas não suportam o ambiente hostil em que estão inseridas”, continua a bacharela.
 
Sem escolaridade básica, nem uma família para a qual pedir apoio, as mulheres trans e travestis, sobretudo, são relegadas a trabalhos informais, sendo o principal deles a prostituição, tornando-se, em sua maioria vulneráveis a todas as formas de violência possível, inclusive a mortes com requintes de crueldade, estupros, empalhamentos, degolações, mutilações dos seus corpos, como forma de tentar exterminar essas pessoas da sociedade. 
 
Os sofrimentos e conflitos das pessoas trans não são oriundos do processo de transição em si, (transicionar, na maioria das vezes, é libertador), mas sim da maneira como a sociedade heteronormativa rotula as pessoas transexuais como transgressoras dessa norma, e por se achar no direito e no dever de nos expulsarem do convívio social, de tentarem apagar nossas existências, de violentarem nossos corpos, de invisibilizarem nossas dores, de não contabilizarem nossas perdas, de nos jogarem no ostracismo do esquecimento e do menosprezo.  
 
O sofrimento e a dor maior de uma pessoa trans é não aceitarem nossas existências, é não nos respeitarem como nós somos, é nos imporem rótulos e nos ameaçarem de extermínio todos os dias.