Andreia Braz

06/06/2020
 
Quanto vale uma vida?
 
 
Brigar sutilmente por respeito
Brigar bravamente por respeito
Brigar por justiça e por respeito
De algum antepassado da cor
 
                        Seu Jorge/Marcelo Yuca...
 
 
O sonho de Miguel era ser jogador de futebol. Aliás, esse foi o tema do seu aniversário de cinco anos. Miguel era torcedor do Sport Clube do Recife, e a foto do porta-retrato mostra essa paixão que é também a de muitos meninos brasileiros. Meninos que, além de amar o futebol, sonham em tornar-se uma estrela do mundo do esporte. Miguel poderia transformar-se num astro do futebol. Quem sabe. A mãe estava esperando o menino completar seis anos para matriculá-lo numa escolinha de futebol. Miguel também queria ser policial e cada vez que deparava com um policial militar pelas ruas do Recife o chamava de “amigo”. Miguel poderia tornar-se policial. Quem sabe.
 
Nas fotos de Miguel, a alegria de uma criança de cinco anos. A alegria de uma criança que era muito amada por sua mãe, por sua avó e pelos amigos e vizinhos do bairro onde morava. A alegria de uma criança que ainda não sabia que a cor da sua pele é motivo de discriminação, de ódio, e até de morte. Sim, esse foi o destino do norte-americano George Floyd, 46 anos, morto pela polícia no último dia 25 de maio, enquanto implorava para ser solto e dizia “não consigo respirar”. Ele fora autuado em flagrante por ter comprado um maço de cigarros com uma nota falsa de 20 dólares. Foram quase nove minutos com um policial apoiando seus joelhos contra o pescoço de “Big Floyd”, como era conhecido o ex-segurança e motorista de caminhão que estava desempregado por causa da pandemia do novo coronavírus. Alguns minutos de ódio e perversidade que ceifaram sua vida, levaram o irmão de Terence Floyd e deixaram órfã a pequena Gianna, seis anos, filha caçula de George Floyd. “Papai mudou o mundo”, disse a menina enquanto era carregada nos ombros de um amigo de infância de George em uma das inúmeras manifestações contra o racismo realizadas após a morte brutal de Floyd.
 
Esse também foi o trágico destino de João Pedro, 14 anos, morto com tiros de fuzil em uma operação policial numa favela do Rio de Janeiro. João Pedro estava em casa, brincando com os amigos, quando a polícia chegou e, ao invés de protegê-lo de uma suposta ameaça, metralhou sua casa e destruiu sua vida sem que ele tivesse chance de se defender ou mesmo ser protegido pelos seus pais. João Pedro era um menino estudioso e sonhava ser advogado. Como disse seu pai, em entrevista ao Jornal Nacional, a polícia “não matou o jovem de 14 anos, com sonho, com projeto, querendo ser alguém na vida. Matou uma família completa, matou um pai, matou uma mãe, matou uma irmã e principalmente o João Pedro. Foi isso que essa polícia fez com a minha vida”.
 
Miguel era filho único de Mirtes Renata, empregada doméstica, e teve sua vida bruscamente interrompida por um ato criminoso de uma dondoca que fazia as unhas enquanto a empregada (mãe de Miguel) passeava com o cachorro da patroa pelas ruas do bairro São José, no Recife. Enquanto Mirtes estava na rua, a patroa, que supostamente deveria cuidar do menino, permitiu que ele entrasse em um elevador sozinho. Ele foi até o nono andar e caiu de uma altura de 35 metros. A madame, Sari Gaspar Côrte Real, indiciada por homicídio culposo (quando não se tem intenção de matar), pagou uma fiança de 20 mil reais e vai responder em liberdade. Quanto vale mesmo uma vida?
 
Essa história absurda e inadmissível me fez lembrar das muitas empregadas domésticas que conheço e também da realidade da minha própria mãe. E quantas vezes ela me levou para o trabalho porque não tinha quem tomasse conta de mim! E quantas vezes me levou para a casa de suas patroas! Essa foi parte da minha infância em Garanhuns, cidade serrana do agreste pernambucano. Felizmente, nunca fui maltratada em nenhum desses lares. O pequeno Miguel não teve a mesma sorte.
 
Não consigo parar de pensar nessa história de Miguel e sequer posso mensurar a dor dessa mãe, uma mulher que criava seu filho sozinha, como milhares de mães brasileiras, que estava trabalhando para oferecer um futuro melhor ao filho. E trabalhando no meio de uma pandemia, diga-se de passagem, quando a recomendação é que as pessoas fiquem em casa. Mirtes e o filho, aliás, foram contaminados pela Covid-19, mas tiveram apenas os sintomas leves da doença. Mas como poderia ficar em casa se uma dondoca como sua patroa não pode ficar sem empregada por alguns meses e cuidar dos próprios filhos e dos afazeres de sua casa? E passear com cachorro? Isso lá é trabalho de empregada doméstica! Mirtes acabou perdendo o filho para manter a pose dessa “elite do atraso”, escravocrata e perversa, para usar uma expressão do sociólogo Jessé de Souza.
 
Queria tanto poder abraçar a mãe de Miguel e dizer a ela que o Brasil inteiro chora a morte do seu filho, mas também queria dizer que esse crime não pode e não vai ficar impune, que precisamos continuar lutando, apesar de toda essa dor que dilacera nosso peito e nos faz lamentar a perda de Miguel, de João Pedro, de Ághata, e de tantas outras crianças e jovens pretos que são assassinados todos os dias em nosso país. Assassinados muitas vezes por uma polícia que deveria protegê-los. Ou será que já esquecemos a morte dos jovens na favela de Paraisópolis, em dezembro de 2019, durante uma ação policial, sob a alegação de que estavam armados e atacaram a polícia? Nove jovens morreram pisoteados naquela madrugada. A quem importa a vida desses jovens da periferia? 
 
Sei que não posso abraçar nenhuma dessas mães, como também sei que nada posso fazer para aplacar suas dores e o vazio deixado com a perda dos seus filhos. Mas posso dizer, assim como Lima Barreto, que os negros só podem ser socialmente integrados através da luta e do constante incômodo. Por isso ele afirmava que “a escravidão não acabou com a abolição, mas ficou enraizada nos menores costumes mais simples”, como lembra sua biógrafa Lilia Schwarcz em entrevista à “Cult”, em 2017. Seguiremos lutando.