Andreia Braz

13/06/2020
 
Presença de Arievaldo Vianna
 
E a coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais.
                                                                                                           Vinicius de Moraes
 
“Por que as pessoas se vão”? Essa pergunta foi feita por um menino ao seu pai adotivo, referindo-se ao fato de ter sido abandonado pelos pais biológicos. O diálogo faz parte do filme “Ensinando a viver”, e a resposta do homem foi, no mínimo, inusitada: “Não sei”. Assisti apenas a última parte do filme e essa conversa me veio à mente quando recebi a notícia da morte do poeta cearense Arievaldo Vianna, no último sábado, 30 de maio, e, desde então, a pergunta daquele garoto não me sai da cabeça. Talvez o poeta Vinicius de Moraes tenha um consolo para os que ficam, cheios de lembranças e saudade: “A morte vem de longe [...] / Chega impressentida / Nunca inesperada”. E foi Rubem Alves quem disse que “é a saudade torna encantadas as pessoas”. 
 
Vi a notícia no grupo de WhatsApp da UBE/RN (União Brasileira de Escritores), entidade literária à qual sou filiada e tem como presidente Tereza Custódio, cearense radicada em terras potiguares, romancista premiada, contista, cronista e cordelista, tal qual o seu conterrâneo Arievaldo, que deixa órfãos uma infinitude de poetas, amantes e estudiosos da arte de fazer versos. E não só isso. Artista múltiplo, o poeta nascido em Quixeramobim, Sertão Central do Ceará, também era ilustrador, radialista, xilogravador e cronista. Hipnotizava plateias com seus causos e versos recitados com maestria e enchia os nossos olhos com seu traço marcante, eternizado em charges e na capa de inúmeros trabalhos publicitários e livros espalhados por esse Brasil que ele tanto amava. 
 
A partida de Arievaldo já me encontrou sentida com o desaparecimento de outro grande escritor, o jornalista Gilberto Dimenstein, que despediu-se da vida um dia antes do poeta cearense, deixando uma lacuna no jornalismo brasileiro e na luta pelos direitos humanos. Gilberto enfrentava um câncer de pâncreas, com metástase no fígado, descoberto no ano passado, e nos deixou grandes lições não apenas por sua brilhante trajetória como jornalista e escritor, mas também no enfrentamento da doença que tão rapidamente ceifou-lhe a vida. “A clareza maior da morte é uma dádiva. Não é um fim, mas um começo”, disse, em entrevista a “Folha de S. Paulo”, no final do ano passado.
 
Voltando à notícia da morte do poeta cearense. Uma sensação de angústia, misturada à incerteza e, sobretudo, à impotência perante a “indesejada das gentes”, como a denominou Manuel Bandeira em seu poema “Consoada”. Ainda não consigo acreditar que aquele homem tão jovial, cheio de entusiasmo e alegria partiu tão cedo. A primeira imagem que me veio à mente foi a XIII Bienal Internacional do Livro de Fortaleza (2019), quando o vi pela primeira e única vez. Ele estava conversando alegremente com um outro poeta na Praça do Cordel. Sorridente, despediu-se do amigo e saiu apressado. Jamais pude imaginar que aquela seria a única vez que teria a oportunidade de vê-lo de perto. Se soubesse disso, talvez tivesse me aproximado e puxado conversa, mesmo que fosse só pra dizer da importância do seu trabalho para a cultura brasileira. Tempus fugit...
 
Membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel e idealizador do Projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, adotado pela Secretaria de Educação do Estado do CE, que utiliza a poesia popular na alfabetização de Jovens e Adultos, ajudou a difundir a literatura de cordel na educação básica. Arievaldo também ministrava palestras e oficinas de cordel Brasil afora. Pesquisador apaixonado pela cultura popular, assinou as biografias de Leandro Gomes de Barros – “Leandro Gomes de Barros: o mestre da literatura de cordel” (Queima-Bucha, 2014), e de Santaninha – “Santaninha, poeta popular na capital do império” (IMEPH, 2017), este último em parceria com Stélio Torquato Lima, além de diversos livros sobre a poesia e o sertão. Escreveu outras obras em parceria com Marco Haurélio, Rouxinol do Rinaré, Zé Maria de Fortaleza. Seu irmão, Klévisson Viana, proprietário da Tupynanquim Editora, também cordelista, cartunista e ilustrador, foi outro grande parceiro de trabalho. A propósito, os dois aparecem juntos no documentário “Heranças Preciosas” (TV Assembleia do Ceará, 2015), que conta a história da família e a paixão pela arte de fazer/declamar versos, herança do avô paterno.
 
Tenho lido bastante sobre Arievaldo nesses últimos dias e percebi o quanto era um homem querido, alegre, talentoso. Nem posso imaginar o que significa a partida de um irmão e parceiro de trabalho/arte, quando lembro de Klévisson Viana, cujo trabalho com literatura de cordel e História em Quadrinhos tem destaque no cenário nacional e já lhe rendeu alguns prêmios. Dentre seus inúmeros trabalhos, Klévisson adaptou para o cordel dois clássicos da literatura universal: “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, e “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. Teve um folheto adaptado para a série Brava Gente da Rede Globo, “O romance da quenga que matou o delegado”.
 
Penso nos seus pais, irmãos, esposa, filhos, amigos... Por outro lado, também penso no legado sentimental que Arievaldo construiu, e isso acalenta um pouco o nosso coração. “Lembro com saudades da FLIP em Paraty do ano passado, quando toda noite, ao fechar a Casa do Cordel, íamos para a ‘Paraty Nova’ tomar cerveja num boteco, cantar músicas de Luiz Gonzaga e Tim Maia”, escreve o amigo Bráulio Tavares, escritor e dramaturgo, em depoimento emocionado numa rede social. 
 
O pesquisador e escritor Marco Haurélio também prestou sua homenagem a Arievaldo e lembrou a militância política, o senso de justiça e a luta por uma sociedade mais justa e solidária: “Sua voz corajosa não vai se calar. Seguirá viva em seus poemas, em suas crônicas, nos espaços que criou na Internet para divulgar seu pensamento e a sua obra. Imagino-o agora encontrando-se com Leandro Gomes de Barros, seu maior ídolo, numa fantástica roda de glosas”. 
 
Que fiquem as boas lembranças, o sorriso, a alegria, os versos, e, principalmente, o legado cultural que ele deixou não só para o Ceará e o Nordeste, mas para o Brasil como um todo. Afinal, “A memória é um milagre”, disse Manuel Bandeira. Talvez o amigo e parceiro de trabalho Bruno Paulino possa demonstrar um pouco da grandeza do poeta de Quixeramobim que ganhou o mundo com sua arte e seu verso cortante: “[...] foi meu Patativa do Assaré e meu Monteiro Lobato. Foi o companheiro de boêmia mais engraçado que conheci, o maior contador de causos do mundo. Não é possível mensurar o legado de uma obra tão grande e de qualidade como a do Arievaldo”.