Ana Paula Campos

15/06/2020
 
BRASIL: O PAÍS ONDE PIADAS RACISTAS USADAS COM FINS RECREATIVOS SÃO PERMITIDAS
 
 
Não. Eles não são jovens imaturos, não estão ficando velhos e não foi só uma brincadeira. O nome disso é racismo recreativo!
 
O Brasil é o país da piada pronta. Brasileiros se autodescrevem como um povo alegre, acolhedor, humanizado, mas todo esse divertimento é provocado à custa do sofrimento de determinados grupos sociais. As piadas sempre atacam negros/as, pobres, mulheres, homossexuais, nordestinos/as e gordos/as. As piadas supostamente engraçadas são sempre dirigidas às pessoas que são desvalorizadas histórica e estruturalmente.
 
Desde o período colonial, somos considerados inferiores, selvagens, aberrações, e foi justamente a visão racista e preconceituosa do branco que serviu de justificativa para mais de três séculos de escravidão e anos de opressão e violência.
 
Em nome do entretenimento geral é permitido fazer piada racista. O humor é a forma aceitável do racismo ainda que todos tenham consciência de que nada disso é brincadeira. Com efeito, cada chacota ou zombaria aparentemente inofensiva transmite uma mensagem muito clara: saltam das entrelinhas as ideias e os valores da nossa sociedade.
 
A igreja católica considerou durante anos que o riso era banalidade. A figura dos clérigos até bem pouco tempo era de homens e mulheres sérios/as, em respeito à casa do Senhor. Eu me lembro de, quando criança, durante o período da Semana Santa, ser chamada a atenção pelo meu pai, católico fervoroso, cada vez que eu deixava escapar uma das minhas risadas escandalosas. Outro grupo associado à seriedade são os militares. Marcham uniformizados sem riso e sem fazer graça. Em geral, não fazemos piada com o que respeitamos. 
 
Na história da Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque de Holanda, quando a menina fica cara a cara com o lobo e percebe que não tem medo dele, ela repete várias vezes a palavra lobo, que, dada a alteração fonética, vira bolo e ela acha graça da situação, fazendo o lobo cobrir a sua genitália com as mãos, em um sinal evidente de masculinidade afetada, perda de respeito e de autoridade. 
 
Vivemos em um país onde as autoridades oprimem e escarneiam, e o mais lamentável é que tudo surge disfarçado de “piada”. O que não faltam são programas de “humor” que têm como objeto da graça alheia as classes consideradas inferiores no país. “Humoristas” que não veem problema em menosprezar quem eles classificam como subgrupo. Essas pessoas, racistas e preconceituosas, ainda se escondem atrás de discursos covardes, tais como: “mas vocês estão ficando muito chatos!”; “tudo hoje é racismo!”. Negros/as, gordos/as e homossexuais sofrem com depressão e cometem suicídio todos os dias. Essa piada tem um preço muito alto. Não é engraçado! É ofensivo e violento, e enquanto alguns sorriem, sangue humano segue sendo derramado. 
 
“Ah, mas eles não entenderam”, alguns tentam colocar panos quentes. Todavia, para que o riso se estabeleça é necessário que a piada seja compreendida, então é criminoso quem provoca o riso e cúmplice quem ri, porque, uma vez aos risos, você está confirmando: EU SOU HOMOFÓBICO, MISÓGINO, RACISTA, GORDOFÓBICO E XENOFÓBICO E ISSO NÃO TEM GRAÇA. É CRIME!