Ana Paula Campos

22/06/2020
 
A Bombril e seu cinismo racista
 
 
Então os monstros do passado saíram de sob a cama para me aterrorizar, rememorando momentos dolorosos do tempo de infância. A empresa Bombril, conhecida por vender palhas de aço entre seus produtos de limpeza, apresentou o novo layout de um deles: KRESPINHA.
 
Trata-se de uma alusão evidente aos cabelos crespos. Um produto de limpeza com o objetivo claro: a higienização da raça negra. Mas façamos uma retomada histórica para chegarmos a esta conclusão óbvia.
 
Em 1952, a empresa S. A. Barros Loureiro Indústria e Comércio lançou um produto com o mesmo nome. Atentem para o detalhe de que Krespinha foi escrito com a letra K, possivelmente fazendo referência ao grupo supremacista Ku Klux Klan. No rótulo, uma menina negra de cabelo crespo aparece associada à frase de divulgação do produto: “às suas ordens”, reforçando a ideologia racista através da linguagem não verbal, que já se fazia presente nos ditados populares da época: “Branca para casar, mulata para fornicar e retinta para trabalhar”.
 
Em 1978, contrapondo-se a esse discurso racista, a filósofa e intelectual negra Lélia Gonzales e o filósofo Abdias Nascimento, em parceria com outros, fundaram o Movimento Negro Unificado e colocaram em evidência as pautas raciais no Brasil, alertando para as urgências de uma luta antirracista e o combate às desigualdades raciais.
 
Apesar disso, 68 anos depois do lançamento de uma marca racista, e após tantos debates contundentes contra essas questões, a empresa Bombril reafirma esse pensamento com o slogan “limpeza pesada”. Diante da enxurrada de críticas, a Bombril anuncia que o produto será retirado do catálogo de vendas, considerando que “não há mais espaço para manifestações de preconceito, sejam elas explícitas ou implícitas”, e ainda acrescenta: “a Bombril compartilha desses valores.” E em algum momento houve espaço para manifestações racistas, Bombril? Bem, parece que sim. Vejamos.
 
Em 2012, o portal Geledés, criado pela intelectual negra e filósofa Sueli Carneiro, já trazia uma denúncia a respeito de uma campanha publicitária da Bombril, rotulada “Mulheres que brilham”, apresentando a imagem de uma mulher com o logotipo da marca sobre sua cabeleira volumosa, associando novamente o produto palha de aço ao cabelo afro. Na ocasião, a empresa também se manifestou nos seguintes termos: “A Bombril faz questão de ressaltar que não teve a intenção de realizar qualquer tipo de associação que não fosse a valorização e exaltação da beleza da mulher brasileira.” Vale lembrar que, na época, negrxs já eram mais de 50% da população e nós, mulheres negras, a maioria.
 
Oito anos depois desse episódio, o que parece evidente é o compromisso em reafirmar esse posicionamento eugenista. A Bombril tem atacado, de forma violenta, não a sujeira como se propõe, mas a subjetividade de pessoas negras que passaram e ainda passam boa parte da vida ouvindo que seu cabelo era ruim e duro como Bombril.
 
Quantxs de nós agrediram o próprio couro cabeludo ao utilizar produtos químicos fortíssimos, na tentativa de fugir dessa imagem negativa e estereotipada? Quantos meninos negros rasparam suas cabeças e ainda o fazem na tentativa de evitar seu volumoso Black Power e, por causa disso, ser motivo de chacota? A discussão aqui não gira apenas em torno da estética. Estamos falando de identidades que foram forjadas violentamente sob a égide do racismo estrutural. Enquanto lutamos para que pessoas negras tenham consciência de que o Black Power é a nossa coroa, símbolo de realeza ancestral, empresas como essas insistem na prática de um genocídio psicológico explícito.
 
Infelizmente, empresas como a Bombril se utilizam de uma das armas mais perversas do racismo, que é a dissimulação. O famoso “não foi o que eu quis dizer” permite que culpados saiam impunes, renovando seus votos anos depois.
 
Minhas palavras de hoje não são dirigidas à Bombril. Seus empresários já deixaram claro seu posicionamento racista. Escrevo para brancxs e negrxs, para que não se deixem cooptar por essa mensagem subliminar que frequentemente forma o nosso imaginário coletivo. 
 
Brancxs, essa piada não tem graça. Repensem suas expressões!
 
Negrxs, como diria Bell Hooks, em uma sociedade que nos ensinou a nos odiar, se amar é um ato revolucionário! Nosso crespo é de reis e rainhas!