Valério Mesquita

24/06/2020
 
 
PERFIS DE NOSSA TERRA: ROMÃO, DISTINTO E PEDRO PIXILINGA
 
 
A Câmara Municipal de Macaíba concedeu tempos passados, o título de cidadania a três figuras representantes de uma época ida e vivida que os anos não trazem mais. Os três integram uma mesma geração, chegados cada um de suas respectivas origens, mas logo se harmonizaram e se entrelaçaram com Macaíba ao ponto de muita gente ainda pensar que aqui haviam nascido. Fincaram no chão de Severo, de Auta, Freire e Mesquita as raízes familiares, de geração a geração, desde o início do século passado.
 
ROMÃO BEZERRA:
Filho de Pedro Bezerra de Azevedo e Ana Bezerra de Azevedo, Romão Bezerra nasceu no dia 15 de novembro de 1914, na Fazena Rosário, em Santana do Matos e chegou a Macaiba pelos idos de 1928, para trabalhar numa sapataria do seu cunhado, Manoel Rodrigues de Oliveira. Em 04 de fevereiro de 1940, casou-se com a professora Enedina Augusta de Albuquerque. Da união amorosa, nasceram os filhos: Dilma, Dilson, Edilson e Romeu. Seu Romão foi uma tradição de retidão, honestidade e respeito conquistados, através dos anos, com muito trabalho na lide comercial, desde o velho mercado até o último ponto de sua atividade, na garagem de sua própria casa, já aposentado. Homem do interior, do campo, da vida rural, jamais deixou de possuir e cuidar de um pequeno rebanho, criado no sítio no fundo de sua residência. Desportista cruzeirense que admirava a arte futebolística do seu saudoso filho Edílson, meu amigo e compadre. Vibrava na emoção de pai com suas jogadas e o gol. Homem integrado a vida social da cidade, foi diretor de várias entidades, inclusive o Pax Club dos bons tempos dos anos 50. Romão Bezerra foi uma reserva moral de Macaíba, cujos cabelos brancos guardavam os dias e as noites da vida da cidade, como um relicário testemunhal da sua construção repetida através dos anos.
 
JOSÉ DISTINTO:
Zé Distinto ou Zé Fradinha, como queiram chamar, era um homem dócil, educado, sem nunca haver frequentado os bancos escolares. Formou-se pela universidade da vida e colou grau em Macaíba, nos anos vinte, quando aqui chegou e foi acolhido pela família de José Maria Magalhães e de Alberto Silva. O seu estilo de tratamento para com as pessoas, a sua obsequiosidade, a sua prestimosidade, fizeram-no um ser disponível, um samaritano, um próximo. Por trás do balcão do seu bar, na praça Augusto Severo, ele comandava um exército de fregueses, com atenção redobrada, onisciente e onipresente, como se adivinhasse, por antecipação e psicologia, o que cada freguês ia pedir. Conheceu muita gente no exercício da profissão. Tanto que fez um álbum de fotos de centenas de personalidades, ricas e pobres, mas todos amigos de Zé Fradinha e admiradores do seu ofício. Distinto conheceu Câmara Cascudo que lhe estimulou a prosseguir nas pesquisas fotográficas. Zé Distinto foi uma chama viva de um passado rico de humanidade, principalmente quando fez desfilar o seu álbum de relembranças.
 
PEDRO PIXILINGA:
Pedro Pixilinga foi o campeão dos carnavais de todos os tempos. Ele surge e ressurge nas avenidas de hoje como um fogo olímpico e emblemático da cultura carnavalesca. Fazia carnaval na base da resistência, do sacrifício, comandando “os Lampiões na Folia”. Pedro foi um poço de recordações. A vida lhe marcou muito, desde as alegrias até as tristezas. Mas nada lhe abalou, porque soube com coragem enfrentar os desafios de homem pobre e leal. Será lembrado sempre como o folião número 01 da cidade, o Lampião dos carnavais macaibenses. 
 
Pedro Pixilinga, ao longo de mais de 50 anos, animou o carnaval da cidade comandando blocos, maxixeiras e bagunças. O seu último foi “Os Cangaceiros na Folia”, sempre fiel ao estilo antigo de desfilar ao som de marchinhas e frevos. Pedro era o Lampião do carnaval de Macaíba, que enfrentava na avenida as famosas escolas de samba “Aí Vem Os Malandros”, “Bafo da Onça”, “Ferro e Aço” e “Os Calouros do Samba”. O valente Pedro Pixilinga, com seus indomáveis cangaceiros e bonitas Marias, fazia um verdadeiro furor, com Ronaldo e Bodete no trombone, Pereira no pistom, Geraldo Paixão no contra-baixo, Banga no tarol, Bastinho no surdo e, de quebra, Belchior, naquela barulheira toda, tocava um banjo inaudível. Era o toque "felliniano" da folia. Na vida doméstica, Pedro era pobre e vivia do jogo do bicho e da roda da sorte de uma “roleta 36”, nos bons tempos. Todos os anos, alguém apostava e perdia: “Esse ano ele não sai!”. No domingo de carnaval, às três da tarde, "Os Cangaceiros da Folia" despontavam nas Cinco Bocas com Pedro à frente, efetuando as primeiras evoluções "lampiônicas". Hoje, tudo é só nostalgia.
Os três títulos concedidos, honrou e enobreceu a Câmara Municipal.