Renisse Ordine

25/06/2020
 
Valdomiro Silveira: Pai do regionalismo paulista
 
 
Entre o século XIX e a primeira década do século XX, a sociedade brasileira era formada por intelectuais, massa de escravos e o caipira/caboclo. Sendo este último desvalorizado pela sociedade intelectual e classificado pelos europeus, como seres incivilizados. Segundo Silveira, mesmo a literatura buscando se afastarem dos europeus, a elite brasileira se deixava influenciar por suas opiniões. 
 
[...] esses homens embrutecidos pela ignorância, pela preguiça, pela falta de convivência com seus semelhantes e, talvez, por excessos venéreos primários, não pensam: vegetam como as árvores, como as ervas do campo [...] a indumentária dos pobres habitantes de Rio das Pedras era tão imunda como suas cabanas [...] Pode-se acrescentar, aos demais, que à indolência juntam eles, geralmente, a idiotice e a impolidez... (SAINT- HILAIRE, 1972.p.45).
 
Portanto, com posterior engrandecimento dos caipiras, por parte da sociedade erudita, começa a surgir na literatura, figuras ficcionais que os representasse. Destacando nessa área, dois grandes escritores, que tornaram a figura do caipira nacionalmente reconhecido: Valdomiro Silveira e Monteiro Lobato com a personagem Jeca Tatu.
 
Como de costume, no século XIX, os contos eram publicados de maneira dispersa nos jornais. Foi o que ocorreu com o primeiro conto de Valdomiro Silveira, Rabicho, veiculado no jornal “Diário Popular”, em 1891. 
 
Mesmo sendo dele o primeiro registro da fala real do homem caipira, há quem não o considere de fato, dono do titulo “Pai da Literatura Regionalista”, por não ter sido conhecido nacionalmente. Como ocorreu com Monteiro Lobato, ao lançar o seu livro “Urupês”, tornando-o famoso em todo o país.
 
Antes de tudo, é bom ir dizendo que Valdomiro Silveira foi o criador da literatura regional do Brasil. Quero fazer-lhe justiça, que outros demoram a praticar, correndo-lhes, mais que a mim mesmo, o desempenho de tão leve obrigação. De fato, até 1894, data em que aparece, no Diário Popular de São Paulo, o seu primeiro conto intitulado “Rabicho”, não me consta que nenhum escritor brasileiro manifestasse qualquer pendor para o regionalismo [...] A escola por ele fundada, prestigiou-a desde logo a pena ilustre de Afonso Arinos; honrou-a com seus trabalhos o imortal patrício Coelho Neto, e nela se inscreveram muitos e muitos outros nomes, inclusive o do fulgurante autor de Urupês. (GONÇALVES, Júnia Silveira, 1974, p.10).
 
Em seus quatros livros: Os Caboclos, Nas Serras e nas Furnas, Mixuangos e Lereias- Histórias contadas por eles mesmos. O autor leva aos leitores urbanos a fala, os costumes, tendo como cenário, a natureza do homem rural e da vida do interior. Utilizando-se de uma escrita, cujos recursos estilísticos encantavam pela simplicidade e um estilo próprio inconfundível. Sendo, o livro Lereias-Histórias contadas por eles mesmos, a sua consagração como escritor regionalista, escrita totalmente no dialeto caipira.
 
Suas obras tornaram-se um trabalho significativo por seguir a ideologia que permeava no cenário intelectual do país, em que o caipira fora colocado como o representante do regionalismo paulista, assim como, por representar o inicio da quebra do uso exclusivo da linguagem culta.