Ana Paula Campos

06/07/2020
 
Um tira no jardim de infância e a natureza do ser
 
 
Gosto de filmes. Na verdade, como não sou muito boa interagindo com pessoas cara a cara, quando não estou lendo, estou vendo filmes nas horas vagas. O caso é que estava assistindo ao filme Um tira no jardim de infância (1990), de Ivan Reitman, cujo personagem principal é o detetive John Kimble, interpretado por Arnold Schwarzenegger, e um dialógo me chamou a atenção. Preocupada com o comportamento do filho, a mãe de uma das crianças pede para conversar com o detetive. O diálogo segue mais ou menos assim:
 
Mãe: “Estou preocupada com “fulano”. Ele tem brincado muito com bonecas. Isso não é natural, né?”
 
Detetive/professor: “Eu sei o que está acontecendo. Ele pega as bonecas para poder olhar a calcinha delas por baixo dos vestidos.”
Mãe: “Ah, que alívio...”
 
Detetive/professor: “Mas de qualquer forma eu vou ficar de olho.”
 
O que me deixou intrigada nessa conversa foi a naturalização das ações. O que é natural? Quando podemos dizer que uma atitude é natural? Podemos?
 
A preocupação da mãe do menino certamente se origina do fato de que socialmente convencionamos que meninos não brincam com boneca. Bonecas são coisas de menina, logo, diante dessa premissa, se um menino brinca de bonecas é porque “tem tendências homossexuais”, e isso não é normal porque homem nasceu para ser homem e mulher nasceu para ser mulher. A querida Damares, ministra dos direitos humanos, não me deixa mentir.
 
Quando o detetive/professor esclarece que a verdadeira intenção da criança é observar a roupa íntima das bonecas, a mãe se sente aliviada. Então, nossa sociedade acha preocupante e até perigoso um menino gostar de brincar de bonecas, mas acha reconfortante o fato de ele se achar no direito de invadir o corpo e a intimidade feminina? Seguindo essa ótica, tudo bem haver homens violentos sexualmente, mas homossexuais, nem pensar! O caso é tão sério que o policial se compromete a “vigiar” o comportamento do garoto.
 
Agora sejam honestos/as: quantas vezes vocês ja viram esse filme? Quantas vezes essa fala lhes despertou reflexão ou ao menos inquietação? Eu mesma já vi o filme diversas vezes, mas só agora parei para pensar nisso. Talvez porque, somente agora, tenho aprofundado minhas leituras no assunto.
 
Estou ciente de que toda e qualquer obra cinematográfica é ficcional, mas se a arte imita a vida, o filme em questão não estaria carregado de convenções sociais? Cada obra é sempre influenciada pelo pensamento de sua época, mas o que me parece atemporal é a nossa tendência de naturalizar o comportamento humano.
 
A filósofa, escritora e professora Marilena Chauí, em seu livro Convite à filosofia (1995), nos traz uma reflexão no capítulo oito sobre a natureza humana. Segundo ela, para nós, o comportamento “natural” seria uma dádiva da natureza e, portanto, algumas atitudes seriam consideradas naturais para todos, ao passo que outras, específicas por espécie, raça, gênero ou grupo social. A autora nos leva a compreender que, dependendo do contexto geográfico, histórico, cultural e político em que vivemos, o conceito do que é natural muda. 
 
Historiografias brasileiras mostram como os sistemas de relações e de organização social estão intimamente alicerçados pelas ideologias dos grupos dominantes. Sendo assim, naturalizar comportamentos nada mais é do que reforçar esteriótipos e tornar algo aceitável comportamentos nocivos para os grupos marginalizados. Vinte e cinco anos depois da fala esclarecedora de Marilena Chauí, percebemos que ainda são poucos os avanços no que se refere à nossa consciência social.
 
Quando compreendemos que nossas ações são regidas por interesses maiores e que estes não prezam pelo bem-estar coletivo, chegamos à preocupante conclusão de que não somos verdadeiramente livres. Quem nós somos e o que fazemos é determinado por quem está no poder. Pensamos o que pensamos graças a uma estrutura colonizadora. O período colonial acabou, mas ainda somos um povo colonizado. Desperte e liberte-se!