Ana Paula Campos

13/07/2020
 
É assim que o status quo se mantém
 
 
Frequentemente, meninas e mulheres negras me procuram para desabafar sobre suas experiências com o racismo. Um desses relatos foi tão intenso que perguntei se eu poderia publicá-lo em minha coluna, na série Mulheres de Luta, que sai uma vez por mês. A moça disse que não, afirmando que não estava pronta para quebrar o silêncio publicamente. Argumentei sobre a importância de evocar a nossa voz, mas respeitei seu tempo. 
 
Mais tarde, eu estava lendo o livro Por que eu não converso mais com pessoas brancas sobre raça, da escritora negra britânica Reni Eddo-Lodge. Nessa obra, a autora expõe um relato de uma vez quando estava conversando com a namorada de um amigo, uma mulher branca, a respeito de machismo e sobre como as mulheres trabalham muito mais para poder provar sua eficiência no local de trabalho.
 
Confiante de que o diálogo havia se estabelecido, bem como a empatia, Reni contou de uma ocasião em que perdeu a vaga em uma empresa para uma mulher branca, igualmente qualificada, ao que a namorada do amigo logo afirmou: “você não sabe se foi racismo.” Reni ainda tentou argumentar, mas brancos só ouvem o que convém, nos acusando de sermos raivosos/as e agressivos/as: “É assim que o status quo branco se mantém. Se eu tivesse discutido com ela, me arriscaria a não ser mais bem-vinda naquela determinada casa, porque eu teria ‘criado um clima’. Eu seria considerada uma ‘racista reversa’, uma encrenqueira irritada e irracional, talvez até uma simpatizante da violência. Esse tipo de exclusão social não parecia valer a pena. Então eu não disse nada.”
 
Nem conto quantas vezes entrei em discussões com pessoas que amo e com as quais me sentia segura para falar abertamente sobre qualquer coisa, mas fui duramente questionada e, para não perder a amizade de tantos anos, também calei. Quantos de nós silenciamos para não perder amigos/as ou para não perder o emprego? Quantas/os de nós nos rendemos ao sistema para poder sobreviver? A minha amiga só estava tentando se proteger. 
 
Também com frequência entro em embates e discussões nas redes sociais com pessoas que têm o pensamento divergente do meu, mas que não estão dispostas,
verdadeiramente, a ouvir, a aprender e a repensar seu universo branco. Sou acusada de ser agressiva e pedante. É preciso ter força e coragem para a militância, mas eu, assim como as intelectuais que sigo e as quais admiro, como Audre Lourde e Lélia Gonzales, só atingi essa confiança depois dos 35 anos.
 
Hoje, perco “amigos virtuais” e seguidores no Instagram, mas uma coisa é certa: meu compromisso com a luta antirracista é maior que tudo. Então, se você não quer ouvir, minhas palavras não são para você.