Bia Crispim

17/07/2020
 
Cisgênero x transgênero
 
 
 
Segundo Beatriz Pagliarini Bagagli (2018): “ “Cisgênero” é uma palavra composta por justaposição do prefixo “cis” ao radical “gênero”. O prefixo “cis”, de origem latina, significa “posição aquém” ou “ao mesmo lado”, fazendo oposição ao prefixo “trans” que significa “posição além” ou “do outro lado”. “Cisgênero” estabelece uma relação de antonímia com a palavra “transgênero”. “Transgênero”, por sua vez, é uma palavra rotineiramente utilizado como forma de designar pessoas cuja auto identificação de gênero não coincide com o gênero atribuído compulsoriamente ao nascimento em virtude da morfologia genital externa, podendo incluir travestis e transexuais. Desta forma, “cisgênero” é utilizado para designar aquelas pessoas que não são transgêneras, ou seja, aquelas cujo gênero auto identificado está na “posição aquém” daquele atribuído compulsoriamente ao nascimento em virtude da morfologia genital externa.”
 
Pensar nesses dois conceitos nos faz refletir sobre como a cisgeneridade ou cisnormatividade afeta a pessoas trans em seu cotidiano, na maneira como ocorre suas transições e na forma como elas, as pessoas trans, se veem. A priori, a imposição da passabilidade - entenda-se por passabilidade a condição de uma pessoa trans se parecer com uma pessoa cis, a ponto de não se perceber diferenças – oprime e condiciona os corpos trans para uma estética normatizada a partir de modelos de corpos cis. 
 
Trocando em miúdos, a cisgeneridade impõe que uma mulher trans, por exemplo, só é uma mulher de fato, aceita como mulher pela sociedade, se ela se parecer física e esteticamente a uma mulher cisgênero, ou seja, a uma mulher que se identifica como mulher desde “o nascimento em virtude da morfologia genital externa’, como diz Begagli (2018). 
 
Para ser uma mulher trans, não é necessário ter passibilidade. Corpos trans, não são corpos cis. Pessoas trans, não são pessoas cis. Apesar de as mulheres cis ou trans terminarem sendo cobradas a ter corpos esteticamente semelhantes. (Para agradar a quem?) 
 
Se uma mulher cis desenvolveu seios pequenos, ela não pode ir a um cirurgião plástico e aumentá-los, ou vice-versa? Se a mulher cis nasce com tendências a ser magricela, ela não pode buscar uma nutricionista, fazer academia e se “bombar”? Pois bem, uma mulher trans, também se utiliza de artifícios médicos e outros tipos de intervenções para moldar seus corpos ao seu bel prazer. Inicialmente como uma forma de se sentirem bem, de adequarem suas estéticas à maneira como elas desejam se ver.
 
Os corpos trans podem se manifestar de muitas maneiras. Há mulheres trans que se hormonizam e desenvolvem seios, e outras não; há aquelas que fazem cirurgia de readequação de sexo e outras não; tudo depende de como essas mulheres se sentem com seus corpos e de que maneira elas querem vê-los, de que maneira elas os desejam.
 
Seus corpos não precisam seguir nenhuma norma, não precisam ter nenhum modelo, sobretudo o modelo cisgênero. E nenhuma mulher trans ou cis precisa se aprisionar ou se oprimir a nenhum modelo estético padrão vigente.
 
Que todos os corpos possam se libertar de quaisquer amarras, e que ninguém deixe de ser feliz por expressar-se a partir do corpo que tem.