Emanuela Sousa

19/07/2020
 
Eu não quero abraços virtuais 
 
Os treze graus em São Paulo essa semana, poderiam me deixar ficar quietinha em casa debaixo do meu edredon quente e macio ao invés de ter que sair para trabalhar. Eu poderia ficar o dia todo assistindo série se pudesse, compartilhar memes com meus amigos, comer mil e uma guloseimas sem sair da cama, enquanto olho pela janela o vem e vai de pessoas.
 
O Facebook me fez o favor de relembrar fotos que tirei o ano passado  nessa época, nas quermesses da Igreja e outras que tirei na festa julina em uma chacara, com direito a fogueira e todas comidas típicas para uma festa ser inesquecível. Como pode? Há um ano atrás estava tudo bem... Estávamos juntos, rindo, brincando, aquecidos pelo calor humano e pelo calor da fogueira, e esse ano... Nada. Você olha o calendário e vê os dias passando rápido que até se perde entre as datas.
 
Enquanto estava de quarentena, tive muitos convites de chamadas de vídeos, com amigos e leitores e não quis participar de nenhuma. Para mim, só aumenta a saudade, voltar à tocar, abraçar e estar perto quem está do lado outro lado. Quando alguém me dizia nas mensagens "Se sinta abraçada... Nos vemos em breve" me dava vontade de responder "mas eu não quero abraços virtuais". Abraços virtuais não confortam, não consolam,  não sustentam.
 
Quando vi meu amigo chegar no restaurante do qual de costume frequentamos e selar o encontro com um abraço, uma luz se despertou em mim: Um consolo.
Há quanto tempo nao sentia o abraço de um amigo? Quanto tempo não tinha braços em volta de mim? Talvez há quatro meses atrás antes de tudo isso começar.  Para você pode ser pouco tempo, para mim muito. 
 
Passamos metade deste ano enclausurados, se vendo pela tela de um celular ou de um computador e ainda temos que manter certa distância em estabelecimentos.  Estamos sedentos de calor humano, da troca, da conversa olho no olho. E muita gente ainda acha que está tudo bem ficar assim... Tudo bem ficar por mais seis meses sem abraçar e ver gente na rua. Eu apenas olho para essas pessoas e penso: Eu sinto muito por isso.
 
A quarentena ainda não acabou. Muitos ainda não voltaram para suas atividades, outros ainda preferem esperar mais um pouco para sair.  Continuo tomando café na padaria enquanto escrevo,  continuo me sentindo sozinha de fora do isolamento. Esse lado solitário me serviu para me ocupar com rascunhos novos... E acredito que muitos escritores tem ocupado este tempo para produzir mais. Pela primeira vez, depois de meses, me vi escrevendo que poderá se transformar em livro, em breve. Isso me anima e de certa forma, me distrai.
 
A solitude nunca me foi tão útil como agora. Nunca me vi produzindo tanto e explorando tantas coisas...
 
Enquanto os abraços, encontros e festas não vem...  O que a gente faz?
 
A gente se aglomera na solidão e espera o tempo passar.