Ana Paula Campos

20/07/2020
 
ABORDAGENS POLICIAIS NO BRASIL
 
Antes de qualquer coisa, é preciso deixarmos claro que o debate a seguir não gira no âmbito individual. Não pretendo aqui analisar a conduta do seu vizinho policial gente boa. Estou falando de uma maioria estatística. Dito isso, vamos aos fatos:
 
EUA. – Um policial branco aborda um homem negro imobilizando-o com o joelho em seu pescoço. Morte física.
 
BRASIL – Um policial aborda uma mulher de 51 anos, comerciante, viúva, mãe de cinco filhos e avó de dois netos, imobilizando-a com o coturno em seu pescoço. Morte psicológica.
 
Apesar de ser necessário considerarmos que os processos histórico-sociais são diferentes nos Estados Unidos e no Brasil, existe um ponto em comum: a percepção de corpos negros sempre como suspeitos e perigosos. Mas, para compreendermos o hoje, será necessário fazermos uma retomada histórica. Para que o seqüestro e a escravização de pessoas negras acontecessem de forma legal, foi necessário que os europeus encontrassem estratégias para justificar suas ações. Para o intelectual negro, Doutor Silvio Almeida, as mídias e as teorias científicas foram utilizadas como ferramentas para formar o inconsciente coletivo através da fruição estética. A concepção de pessoas negras como inferiores intelectualmente, do mito do estuprador negro, bem como do herói salvador branco começa a circular nos filmes e na literatura, com respaldo teórico de pseudointelectuais. 
 
Hoje em dia, somos igualmente informados pelas novelas sobre essas concepções quando mulheres negras se limitam aos papéis de empregadas domesticas ou prostitutas; e homens negros, aos papéis de bandidos, bêbados ou daqueles que são eternamente gratos aos seus senhores. Nos livros de literatura ou mesmo livros didáticos, nós nos deparamos com a ausência de potências negras. 
 
Os policias já trazem toda essa bagagem quando chegam ao curso de polícia, e lá, novamente essas informações são reforçadas de tal forma que os agentes já adentram as periferias munidos de estereótipos e arquétipos, que reforçam a necessidade de uma abordagem violenta. 
 
A maioria desses policiais são pessoas negras que se iludem com o falso poder conferido por uma farda. Para a sociedade racista, eles não passam de homens negros. O cidadão de bem de Alphaville confirma essa teoria. O Brasil é o país onde mais morrem policiais em serviço. É o Estado promovendo o genocídio do povo preto, colocando um irmão para matar o outro sem nem precisar sujar as mãos para isso. 
 
Quando me proponho a trazer essa reflexão, não é com o intuito de colocar a população contra os policiais. Essa é uma estratégia do colonizador, colocar povo contra povo. Preto contra preto. Dividir para conquistar. Mas ao contrário, estou aqui na tentativa de abrir os olhos de todos/as para essa violência pautada por uma ideia escravocrata. O inimigo não está na periferia. Ele veste gravata e utiliza um falso discurso de “combate às drogas” para cancelar corpos pretos. 
 
Fica então aqui meu apelo aos/às policiais: ao cruzarem com um/a negro/a na rua, antes de qualquer abordagem, tire a venda do racismo dos olhos.