Théo Alves

26/07/2020
 
“Outro retrato em branco e preto a maltratar meu coração”
 
A música faz parte da minha vida desde os tempos de criança, quando sintonizava rádios de todo o mundo pela frequência OM em um velho Motoradio de minha avó. Depois, em outro menos velho que ganhei de aniversário. Costumava ouvir músicas e radialistas de países e línguas as quais ainda não compreendia. 
 
Cresci ouvindo alguns poucos discos em casa e gravando fitas K7 dos amigos, que me apresentavam os músicos que foram constituindo minha bagagem sonora de maneira eclética, numa época em que não tínhamos internet nem computadores pessoais acessíveis como hoje. Aliás, só depois vieram os celulares, que estavam restritos basicamente a duas funções: ouvir e falar, às vezes.
 
Embora a música fizesse parte dos meus dias, raramente tinha acesso à música ao vivo, limitada aos discos em que as gravações haviam sido feitas assim. Posso contar em uma mão os poucos shows a que assisti em minha cidade, ainda que esses poucos tenham sido muito bonitos e marcantes para mim. Eu viajava pouco e para onde ia também não havia apresentações do que eu gostava de ouvir. Por isso, confesso, a música ao vivo não ocupou na minha memória o espaço que deveria. 
 
Nos últimos meses, nestes em que parte de nós se encontra em confinamento, tenho ouvido mais música ao vivo do que em qualquer outro tempo de minha vida. É curioso e irônico que, quando menos podemos sair de nossas casas para ver shows, eu os tenha visto mais, na maioria das vezes sentado à primeira fila, seja pelo Instagram, Youtube ou as novas plataformas pagas que estão ampliando seu espaço. 
 
Os músicos que mais ouço hoje em dia e que estavam geograficamente distantes de mim e perto de muitas outras pessoas agora estão a exata distância de todos nós. Não importa que Martins e Zé Manoel estejam em Recife e São Paulo ou que Marcelo Jeneci e Rodrigo Amarante estejam no Rio de Janeiro. Até a Califórnia de Rufus Wainwright tem a mesma distância que a Natal de Khrystal. E nós, o público, estamos todos sentados democraticamente na mesma cadeira.
 
Obviamente, não quero dizer que as lives substituíram as apresentações in loco. Quero dizer exatamente o contrário: agora todos têm as mesmas limitações que eu e boa parte das pessoas com quem convivo também tem. Elas sabem agora como faz falta poder compartilhar a energia dos shows, a força de apresentações históricas, o ritual que precede e atinge seu ápice durante as performances cara a cara. Este é um bom momento para pensarmos como seria mais interessante termos acesso a uma música mais democrática, em que pelo menos alguma variedade fosse possível.
 
Como disse antes, a música ao vivo não foi das experiências mais presentes em minha vida. Mas tenho de admitir que sou um homem de sorte, que guardo boas lembranças de músicos e encontros improváveis: os amigos tocando em bares vazios, por diversão, enquanto bebíamos cerveja; uma tarde e noite com Tibério Azul, que hoje se tornou um amigo; uma apresentação arrebatadora de Khrystal, quase transcendente; uma conversa ao pé do palco antes de uma apresentação de Nei Lisboa; uma noite de junho embalada por Sivuca e a Orquestra Sinfônica da UFRN em praça pública; um saxofonista de rua em Brasília, que me dedicou uma linda versão de Smoke Gets in Your Eyes, enquanto eu o fotografava; um café no bairro da Liberdade com um violonista que tinha deixado de se apresentar na noite para trabalhar em um estacionamento e que tocou Dia Branco para “agradecer pelo café e pela conversa”; além de umas outros momentos sobre as quais ainda escreverei um dia.
 
Mas foi em Ouro Preto, mais de vinte anos atrás, que vivi minha melhor aventura com a música ao vivo: após alguns dias na cidade, perambulando com pouquíssimo dinheiro, depois da apresentação em um seminário na UFOP, fui a uma padaria tomar café com leite e comer pão de queijo, no fim de tarde de uma sexta-feira. Um músico afinava seu violão quando começou a tocar Retrato em Branco e Preto, de Tom Jobim e Chico Buarque. 
 
Ele tentava lembrar-se dos versos, mas a memória o traía e eu, timidamente, recitei os versos que lhe faltavam. Ele agradeceu e tocou a música inteira de um jeito ainda mais melancólico e bonito do que as versões que eu conhecia. Falamos sobre música, sobre Minas, sobre a memória e ele me disse para escolher uma música. Sem titubear, pedi Lambada de Serpente, que eu andava a ouvir repetidamente nas vozes de Djavan ou Pena Branca e Xavantinho. Ele tocou a música que escolhi diante do meu silêncio para não macular um momento tão bonito. Nos cumprimentamos e ele foi embora, deixando para mim a versão mais bonita dessa música que ainda amo, cantada por alguém cujo nome desconheço, em um fim de tarde em Ouro Preto, da qual o único registro é minha memória trazida à tona nestes tempos de isolamento. E é um registro tão delicado que às vezes hesito na certeza de ser real.