Théo Alves

02/08/2020
 
Amar as palavras, esquecer as palavras 
 
 
Boa parte de minhas primeiras lembranças está relacionada às palavras e a minha avó. Entre uma ou outra coisa que me escapa, recordo do fascínio que senti diante de palavras quase impossíveis para mim nos anos iniciais da vida. Por exemplo, a paciência de minha avó a me ensinar “tigre” e “helicóptero”, duas palavras tão difíceis e que ainda hoje só as conheço de nome e imagem. 
 
Não sei se meu apreço – para ainda não chamar de amor – pelas palavras é anterior ou posterior às lições de minha avó, no entanto sei que sempre tive por elas imensa curiosidade, carinho e cuidado. Quanto mais as palavras pareciam improváveis, mas exerciam encanto sobre mim. As palavras novas me deslumbravam e as antigas eram objetos de exploração. Gostava de esticá-las e adormecê-las sob mim para saber que frutos lhe seriam possíveis. 
 
A palavra “lonjura”, por exemplo, foi uma das primeiras que amei. Gostava de como ela soava em minha boca, de como se desenhava no papel ou no chão de terra da minha rua. Escrevia com um graveto inúmeras vezes “lonjura”, e gostava cada vez mais dela por dentro e por fora. Muitos anos depois voltei a encontrá-la em Pedro Páramo, livro de Juan Rulfo. Não por menos, eu preferia escrever o nome das coisas a desenhá-las em meu caderno. Achava mais bonito escrever “árvore” – que sempre achei uma palavra elegante – a desenhar árvores em frente às casas que a escola me obrigava a pintar. 
 
O apreço pelas palavras tornou-se amor ainda cedo e elas foram construindo parte dos alicerces que me sustentam. Minhas memórias são melhores contadas do que pensadas porque as palavras melhoram as coisas que imagino. Parte delas, ao menos.
 
Devido a essas lembranças das palavras, sempre tive, desde pequeno, algum receio de que um dia as pudesse esquecer. 
 
Eu vi minha avó perder as palavras com o passar dos anos. Primeiro, a confusão das coisas simples, a troca de um nome por outro, dizer sal quando queria dizer açúcar ou de se perguntar “como é o nome disso” quando a resposta era algo simples como “agulha”, por exemplo. Depois ela passou a esquecer-se das palavras que nomeavam pessoas, todas próximas. Era comum chamar o nome de três filhas para só na última combinar o nome à pessoa. Aquilo parecia um exercício tão exaustivo que não tardou que passasse a chamar a maioria das pessoas de “essa menina” ou “esse menino”, independentemente da idade ou proximidade de quem fosse.
 
Talvez essas memórias tenham me feito amar tão incondicionalmente um dos personagens do livro “Extremamente alto, incrivelmente perto”, do escritor americano Jonathan Safran Foer. Thomas Schell, avô do pequeno Oscar – que procura pistas sobre a morte de seu pai no 11 de Setembro – é um velho cuja história de amor por sua esposa mistura-se às histórias de amor por seu neto e pelas palavras. Ao perceber que começa a perder as palavras, o avô as tatua ou escreve-as num caderno sempre a seu alcance. Há uma passagem muito bonita em que ele tatua “sim” e “não” em cada uma das mãos e faz com que essas palavras opostas se encontrem todas as vezes em que aplaude algo.
 
Verdade é que amar as palavras é um caminho bonito, não tenho dúvidas. Deixar-se ser amado por elas é uma realização duas vezes maior, plena. Por isso esquecê-las ao longo do caminho parece tão triste e melancólico, ainda que não pareça doloroso. Em alguma medida é como a cegueira lenta e gradual descrita pelo escritor argentino Jorge Luís Borges: como um crepúsculo lento.
 
Perder as palavras não dói porque é como perder-se tão lentamente que parece impossível dizer em que parte do caminho nos esquecemos delas e de nós. Por isso, agora enquanto escrevo esta crônica, me sinto tranquilo mesmo sabendo que as primeiras palavras já começam a me escapar sob a desculpa do cansaço ou da insônia. Sei que estou pronto para esquecer as palavras e a mim, desde que muito lentamente.