Emanuela Sousa

02/08/2020
 
 
Meu anti-romantismo na quarentena 
 
 
Já não falava mais de amor. Dois mil e vinte me trouxe rupturas, cancelou milhares de eventos, me abriu um buraco que me vi sem saída. Me fechou tanto os olhos para o futuro,  que escrever romances ficou em segundo plano.
 
A pandemia abriu um abismo dentro de mim, coberto de incertezas, em que lutei para preenche-lo com coisas instantâneas, soluções rápidas, mas de nenhum modo pensei em fugir de viver romances, nem de escrever sobre. Apenas houve uma pausa. Nem sempre os escritores estão a fim de falar sobre coisas belas da vida... Ás vezes queremos falar sobre o que nos incomoda, sobre o que dói. Ás vezes o que falta é inspiração.
 
A situação atual do mundo é algo difícil de ignorar,  me incomodou desde o começo, e me senti na obrigação de escrever. Minha vida virou do avesso (e a de todos) os flertes se tornaram apenas virtuais. Marcar de sair?  Nem pensar!  "Só depois da quarentena."
 
Ao longo das semanas recebi mensagens de leitores pedindo para que eu voltasse à postar poesias de amor. Creio que estivessem se sentindo órfãos de leituras mais açucaradas que estavam tão acostumados a receber de mim, com a necessidade de fuga da realidade.
 
E durante toda a semana fiquei  tentando desencadear a idéia de escrever algo mais leve. E assim fiz uma poesia romântica e postei. A reação das pessoas foi tão incrível que parecia que era a primeira vez que eu tinha escrito algo. Neste momento me lembrei que há muitos casais que foram separados pelo isolamento, há muita gente que está vivendo namoro a distância, e outros que ainda estão vivendo sobre às expectativas de se encontrarem pós a pandemia.
 
A realidade te assusta?  Ok. Vou lhe anesteciar com uma poesia.
 
(...)
Quando você me encontrar
Me traga luz,
Porque estou cansada de ficar
sob a escuridão.
 
Traga o fogo
Estamos há muito tempo expostos
ao frio do isolamento.
 
Traga tudo com você, mas
Quando minha boca for encontrar
a sua
Esqueça do celular,
Das horas, 
Das chaves...
 
Nada importará
Quando eu e você
Estivermos juntos.
 
Existirá apenas o silêncio,
O vinho servido sobre a mesa,
As estrelas,
E as batidas do coração.
 
Horas depois de ter postado me perguntaram se eu ainda acreditava em amor. Eu acredito, respondi.
 
Meu anti- romantismo durante a quarentena não tem haver com quem me relaciono ou com quem deixei de me relacionar, mas sim com a tamanha sensação de injustiça que senti ( sinto isso constantemente) e quis dar voz ao que mais me incomodava.
 
Eu não fujo dos romances, das paixões desenfreadas,  nem nos livros de Shakespeare.
 
No fundo sabemos que o amor é tudo que procuramos e ele quem nos salva nos piores dias.