Théo Alves

16/08/2020
 
Licença para morrer
 
 
Desde as primeiras semanas de pandemia e confinamento no Brasil, ler os relatórios de mortes por Covid 19 me dá sempre uma sensação de que institucionalizamos a permissão para morrer de algumas pessoas, as que dizemos fazer parte dos tais grupos de risco ou que aprendemos a apelidar com nomes mais tecnicamente frios como “pessoas com comorbidades”.
 
Claro que esta nossa humanidade sempre teve seus desprezados, aqueles a quem era permitido morrer ou cujas mortes já eram esperadas, previamente contabilizadas ou presentes nas listas de óbitos previsíveis. 
 
Os mineradores de carvão nos séculos XVII e XIX, milhares de africanos escravizados e trazidos para cá em navios negreiros onde a sobrevivência era um primeiro teste para a degradação, em que os escravizados eram tidos em conta tão pequena que as mortes eram tratadas como os despojos habituais da viagem.
 
Mas a Covid 19 transformou essas mortes em notas de boletim emitidas por prefeituras e governos, absolutamente frias e que beiram culpar as vítimas por suas mortes. É como se todo hipertenso, diabético, velho, obeso ou sei lá mais o quê tivesse uma espécie de justificativa ou mesmo uma licença para morrer.
 
Com medo de perderem votos para as eleições municipais que se aproximam, as secretarias de saúde se esforçam em espalhar a responsabilidade das mortes para quem morreu, para as famílias, para a vida dessas pessoas antes do Corona vírus. 
 
As notas trazem, no meio dos redondos números de infectados, as explicações para os óbitos que começam usualmente com algo como “trata-se de uma senhora de 71 anos...”, por exemplo, ou “o paciente era portador de comorbidades...” e ainda “demorou a procurar uma unidade de saúde”. 
 
Os boletins não dizem que as pessoas morreram porque o isolamento social não foi feito corretamente, porque o poder público não ofereceu condições de testes e tratamento ideais, ou que as medidas de proteção e profilaxia nunca foram cumpridas adequadamente. A responsabilidade – para não usar a palavra culpa – parece recair sempre sobre as vítimas, invariavelmente velhas ou doentes, portanto descartáveis para uma sociedade fria e sem a menor capacidade de empatia, que despreza a vida e a história de cada um dos que morreram por conta de uma pandemia que poderia ter sido minimizada, cujos efeitos poderiam ter sido mitigados. No entanto, a incapacidade de nossos governantes e a nossa pouca disposição e respeito pela vida não permitiram.
 
À esta altura, já elegemos quem pode morrer e a verdade é que não damos a mínima para isso. Assim como já permitimos muitas vezes que pretos, índios, pessoas LGBTQA+, pobres, pessoas em situação de rua morressem em silêncio para que o outro lado não se sinta incomodado. Enquanto isso, seguimos enterrando os culpados de suas próprias mortes. Mais de mil todos os dias, essa gente desocupada que só pensa em morrer.
 
Que caminho terrível nós escolhemos.