Théo Alves

30/08/2020
 
A contagem do tempo
 
 
O tempo sempre foi um dos meus enigmas favoritos. Durante anos entendi que o tempo era um inimigo a ser batido, uma entidade que descia suas forças sobre mim e contra a qual eu me punha a correr em combate, como todo jovem pretensioso. 
 
O aprendizado ao longo dos anos faz com que compreendamos que não há possibilidade de vencer o tempo, que ele há de passar indiferente aos nossos anseios e expectativas, aos nossos planos e à organização que queremos dar à vida, acreditando ingenuamente que podemos domá-la. No entanto, é com o tempo que aprendemos coisas como: os dias passam cada vez mais lentamente, arrastando-se por horas infinitas, enquanto os anos passam cada vez mais rápidos.
 
Um dia estamos comemorando a noite de Ano Novo. No dia seguinte, já celebramos junho e, antes mesmo que as fogueiras esfriem, já é dezembro outra vez. 
Essa luta inglória e infantil contra o tempo precisa cessar e a maturidade pode nos oferecer essa oportunidade se estivermos dispostos a ela. É necessário compreender que o tempo passa indiferente a nós, que não nos oferece lições, que não é um inimigo, menos ainda um aliado. É necessário compreender que o máximo a que temos direito é a capacidade de mensurar o tempo, mesmo que de uma maneira falha e imprecisa como são nossos calendários e relógios.
 
Mas há ainda uma lição fundamental, que diz respeito às nossas sensações diante do tempo. E nossas sensações são projeções nossas, tão particulares como a maneira pela qual vemos o mundo. É por isso que tantas experiências carregam sensações diferentes da passagem do tempo: as horas em trabalho de parto parecem infinitas, assim como uma diferença de frações de segundos entre o primeiro e o segundo colocado em uma prova de Fórmula 1. Qualquer meia hora de espera em um consultório de dentista parece se arrastar sob o peso impossível dos ponteiros. Essa mesma meia hora que voa no reencontro com alguém a quem amamos e há muito não víamos. Os dez segundos que o juiz conta em uma luta de boxe arrastam-se para quem espera ser declarado vencedor, mas voam para o lutador que tenta se refazer da queda. 
 
Não sei dizer, por exemplo, se os anos desde que meus filhos nasceram até hoje são muito ou pouco tempo. Às vezes me parece impossível que tenham crescido tanto tão rapidamente, porém me pego lidando com eles como se estivessem acabando de nascer e tenho de me policiar para me comportar como alguém que percebe o quanto passa o tempo e não parecer um pai deslocado da realidade dos seus.
 
É engraçado, por exemplo, quando resolvo ouvir um disco que tocava sempre na minha adolescência e que ouvia com os amigos. De repente, me dou conta de que o disco foi lançado vinte anos atrás e que não pode mais ser chamado de “novo”. Percebo com certo bom humor que o tempo passou para mim e para os amigos que me acompanhavam, o que me faz sentir saudades deles e chamá-los pelo Whatsapp para perguntar como estão.
 
Quem dera toda mensuração do tempo indicasse uma promessa de felicidade. Entretanto...
 
Certamente não temos como precisar o tempo, por isso somos sempre reféns de nossas impressões e elas muitas vezes beiram o insuportável. Como medir, por exemplo: noventa segundos de um coturno policial sobre o pescoço de um negro? Trinta e cinco dias de UTI para quem vai morrer ao fim de um tratamento para Covid 19, cuja contaminação poder ter sido evitada? E o que dizer de quatro anos de sucessivos estupros na vida de uma menina? O que são quatro horas para um homem morto em um corredor do Carrefour, cercado por guarda-sóis e caixas de cerveja? Quão intermináveis parecem os quatro anos de um governo fascista, marcado pela crueldade e pelo desrespeito à democracia?
 
O tempo parece mesmo improvável aos nossos meios falíveis de marcá-lo.
 
Rodeados de máquinas que falseiam a contagem do tempo, incapazes de precisá-lo e insuficientes para relativizar nossas percepções, nos resta pouco a fazer e muito a aprender. Resta ouvir Nana Caymmi cantar “Resposta ao tempo”, música de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc: “Mas fico sem jeito calado, ele ri/ Ele zomba do quanto eu chorei/ Porque sabe passar/ E eu não sei”.