Eliade Pimentel

10/09/2020
 
Saber ‘ler’ o mundo é essencial para viver bem
 
 
Cortei umas rodelas de inhame e coloquei o tubérculo para cozinhar imerso em água. Minha mãe olhou para mim e disse, reclamando de minha atitude impensada: você ainda está nesse tempo? Eu, surpreendida pela matriarca (falecida aos 81 anos, há quase quatro anos), quando ela já estava bem vivida. Sim, algo que eu admirava bastante em D. Helena era sua capacidade de “ler” o mundo ao seu redor. 
 
Desde criança, tenho forte comigo a lembrança de minha mãe usar a cuscuzeira para cozinhar legumes no vapor. E também para esquentar comida. Do arroz do dia a dia, à pamonha que foi pra geladeira, até à torta salgada. É nosso micro-ondas. Para a salada de maionese do almoço, a cenoura vai primeiro, depois a batata e por último o chuchu. A posição que cada qual ocupa vai de acordo com a ordem de cozimento. Em tempo, aos desavisados: cenoura é mais durinha e entra primeiro. 
 
Quando ela via alguma amiga – ou a filha, como me aconteceu - cozinhando os legumes na água, dava logo um jeito de instruir: desse jeito você joga fora as “vitaminas” dos alimentos, junto com a água que vai pro ralo. O que mais me admira nisso tudo é que, quando minha mãe começou a usar o vapor, foi absolutamente por intuição. Ninguém precisou ensiná-la. Ela fez a própria leitura. E hoje em dia, principalmente por termos tanta informação, ver alguém no meu dia a dia desperdiçando os nutrientes de legumes e tubérculos ao cozinhá-los na água é algo que me incomoda.
 
O argumento do tempo não vale, pois no vapor é mais rápido. A comida fica mais saborosa. E a dica vale para tubérculos com batata doce e inhame. Nunca tentei para macaxeira. Mas, por que não arriscar? Vou fazer e depois eu falo. Enquanto isso, vamos conversando sobre intuição, conhecimento de mundo, entrelinhas e subtexto. Que tal, por exemplo, dar mais atenção ao suspiro de alguém próximo a você? Pode ser de felicidade, mas pode ser também de desespero. E nesse caso, seu ouvido e seu olhar atentos poderão salvar uma vida. 
 
Saber ler o mundo é algo que transcende o be-a-bá das palavras. Para quem faz concursos, é obrigatório ter esse olhar. A pessoa pode até encontrar um norte para uma dissertação apenas por ter ouvido falar de algo, a ponto de ter apreendido uma informação que ajuda a contextualizar o tema proposto. Eu não sei de tudo, porém, gosto de estar antenada. Para mim, um pingo é letra. 
 
Com poucos elementos, consigo fazer a leitura de coisas importantes para o meu dia a dia. Antes, eu ouvia muito falar em radicais livres. Achava até engraçada essa expressão. Depois ouvi falar em antioxidantes. Até descobrir que o segundo elimina o primeiro. E mesmo sem entender nada de química, comecei a buscar na alimentação quais os nutrientes que têm a função de colocar os radicais pra correr, proporcionando equilíbrio ao nosso corpo. 
 
De forma lúdica, tenho propalado por onde passo acerca dos nutrientes e de suas funções no nosso organismo. À turma que está em transição para o vegetarianismo, sempre alerto para a substituição de alimentos por outros de valores nutricionais semelhantes. Tipo: proteína animal por algo igualmente rico em proteína. Tem dado certo.  
 
Minha filha, hoje adolescente, sempre foi bem saudável. Passou anos sem precisar ir ao médico. Até me culpa um pouco por ter adquirido certa aversão a consultórios. Para ela, ensinei a ter frutas e outros vegetais sempre à mão. São nossa maior riqueza contra a maioria das doenças. Quando ela tinha acesso de tosse, evitava dar leite, por ouvir falar que o mesmo retém o muco. 
 
Eu nem ia atrás de saber mais detalhes, mas já compreendia que esse tal muco no pulmão é o principal vilão daquela tosse chata, precedida de cansaço respiratório. E já levei muito fora e olhares enviesados de mães e pais que estão com os filhos doentes de virose, porque eu falo para evitar produtos lácteos. Nesse caso, é só fazer uma leitura por si. Evitar e ver qual é. Foi assim que fiz. Testei e deu certo. Se tiver dúvidas, procure um veículo de comunicação sério e leia mais sobre o assunto que instiga sua curiosidade.  
 
Muitas vezes, a leitura a ser feita é literal. Tem tanta gente que diz não saber cozinhar, ou lavar roupas... Já experimentou ler o rótulo dos alimentos e dos produtos? Sua vida vai dar uma guinada quando a leitura fizer parte de seu mundo. Até o picho do muro pode lhe ser útil. “Fale menos e goze mais”, li num paredão a caminho do mar.