Wellington Duarte

12/09/2020
 
11 de setembro: terra em transe e a herança do caos
 
 
A data de 11 de setembro traz duas lembranças que tiveram forte impacto para a nossa construção como civilização. A esmagadora maioria lembra de um, quer dizer, do acontecimento e não da sua consequência. Mas, que acontecimentos foram esses?
 
O primeiro, escondido da memória e colocado sob o tapete da história em um país doente e sequestrado pelo fascismo tupiniquim, trouxe para a história da América Latina, terror, morte e atraso, cujo legado hoje nos encarcerou no culto à Morte.
 
Em 11 de Setembro de 1970, ocorreu um dos episódios mais trágicos da recente história da América do Sul, quando Salvador Allende, presidente do Chile, eleito em 1970, por uma coalizão que vencera apertado a tradicional democracia cristã (36,6% a 35,3%), foi assassinado durante um Golpe Militar sangrento, com dezenas de mortos, orquestrado descaradamente pela CIA, encerrando um experiência de um governo progressista, sabotado em toda a sua existência.
 
Mas, qual a importância desse acontecimento? Ele consolidou a tese dos EUA de que não seria tolerado nenhum governo que tomasse qualquer direção diferente do que era vindo da Casa Branca. Na década de 70, todos os países da América do Sul estavam sob controle militar (Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Peru; sob tutela militar (Uruguai e Equador); sob controle das oligarquias apoiadas pelos EUA (Colômbia e Venezuela). O Golpe de 11 de Setembro criou um futuro sombrio, com a destruição de toda e qualquer possibilidade de surgimento de um pensamento progressista, com destruição do primado da política e com a implementação das bases do Estado Corrupto com a cumplicidade dos militares.
 
Salvador Allende, fuzilado pelas costas, foi um símbolo de resistência. Não se rendeu e não aceitou ser preso. Morreu literalmente defendendo a democracia, mas o legado o do Golpe no Chile, em 11 de Setembro, nos assombra, afinal o presidente da República é um ardoroso defensor do general que comandou o Golpe e traiu miseravelmente seu país, pois era Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, nomeado pelo próprio Pinochet; e seu “czar” da economia pertence ao grupo que implementou, pela primeira vez, um programa ultra liberal que destroçou a economia do país e hoje, essa mesma criatura, lidera uma equipe que tenta fazer a mesma coisa que foi feito em 1973.
 
O segundo fato tornou o mundo mais violento e menos seguro. O ataque de 11 de Setembro aos EUA, com o lançamento de dois aviões no símbolo do poderio financeiro dos EUA, o World Trade Center; no terceiro avião de passageiros que deliberadamente foi lançado contra o o Pentágono, a sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, no Condado de Arlington, Virgínia, nos arredores de Washington, D.C. ; e o quarto avião, que, caiu em um campo aberto próximo de Shanksville, na Pensilvânia, depois de alguns de seus passageiros e tripulantes terem tentado retomar o controle da aeronave dos sequestradores, que a tinham reencaminhado na direção da capital norte-americana. Não houve sobreviventes em qualquer um dos voos.
 
Esse ataque realizado pela al-Qaeda, custou a vida de 3.000 pessoas e provocou uma onda de terror no mundo, muito bem capitaneada pelos EUA, que, a partir daí construí a narrativa necessária INVADIR e OCUPAR o Iraque, dois anos depois, matando, entre civis e militares, mais de 52.000 pessoas e tornando o país um inferno, resultando numa anarquia política (2003-7) e numa guerra civil (2011-2017), que contabilizou 100.000 mortes.
 
O que une os dois fatos? Em ambos os casos havia o dedo sangrento dos EUA. No primeiro assessorando Pinochet e posteriormente dando-lhe apoio estrutural que fez a Ditadura Chilena ser uma das mais sangrentas, com milhares de mortos e só caindo em 1992; no segundo caso a CIA criou literalmente a figura de Bin Laden, pois financiou seus guerreiros durante a guerra do Afeganistão e fez vista grossa da sua chegada ao Afeganistão, então controlado pelos Talibãs, pois seu alvo, naquela época era Saddam Hussein, o mesmo que os EUA, entre 1982 e 1988, despejou bilhões de dólares em armamentos para que aquele derrotasse o Irã dos aiatolás. Bin Laden acabou se voltando contra os EUA e deu no que deu.
 
Pelo que percebi, principalmente entre os mais jovens, Salvador Allende é um “notório desconhecido” e os atentados são lembrados pelo que foram: um atentado. Quem não ficou ao lado dos EUA quando este mobilizou sua máquina de guerra, primeiro contra o Afeganistão, já em 2001, derrubando o Talibã e criando seu protetorado; depois contra o Iraque em 2003, uma invasão criminosa?
 
Separados por 31 anos, esses dois fatos históricos estão presentes mais do que se imagina na história e se você duvida é só abrir a janela e olhar para o mundo.