José Pinto Júnior

19/09/2020
 
Laurentino Gomes e o Brasil de 1808
 
 
Nos bancos de faculdade e nos botecos do Brasil se discute sobre a história do Brasil. Entre páginas e goles se diz que, o Brasil é um milagre por ter dimensão continental e falar a mesma língua. Se diz que tem tudo para ser um País muito mais rico e organizado do que de fato é. Também se diz que poderia ser pior. Com boa técnica jornalística, o repórter e escritor Laurentino Gomes, joga luz sobre este debate através do livro: 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. 
 
Obrigado a escolher entre França e Inglaterra numa guerra sangrenta que vivia a Europa, o monarca português, D. João, negociava secretamente com os dois. Não treinado para atos de bravura, terminou aceitando a ajuda da Inglaterra em troca de abrir os portos brasileiros para o comércio das chamadas nações amigas. “Era tudo um jogo de faz de conta, uma partida perigosa, na qual Portugal tentava blefar simultaneamente com Napoleão e com a Inglaterra. Enquanto fingia aceitar o ultimato da França, negociava com a Inglaterra uma solução diferente para o impasse.” (...) “Na guerra entre França e a Inglaterra, Portugal fazia o papel de marisco entre o rochedo e o mar”. Era enfrentar ou fugir. 
 
O príncipe de Portugal D. João para continuar em Portugal teria que enfrentar o exército do francês Napoleão Bonaparte. Mas não tinha coragem de enfrentar o desafio. Preferiu abandonar sua gente e fugir para a Brasil, sua mais rica colônia. Em 1808, chegaram ao Brasil os navios portugueses com a família real, escoltado pelos ingleses. “Com um imenso território virgem, escassamente povoado, o Brasil tinha pouco mais de 3 milhões de habitantes, menos de dois por cento da população atual. De cada três brasileiros, um era e escravo”, escreve o autor na página 122. 
 
Por Portugal manterá colônia fechado por séculos para o comércio e a ciência, quando a corte aqui chegou encontrou obviamente uma população analfabeta e pobre. “Na cidade de São Paulo, já no governo de D. João VI, apenas 2,5% dos homens livres em idade escolar eram alfabetizados”. Aliás, esta chaga curamos até hoje, ainda temos cerca de dez por cento da população analfabeta em pleno século 21. 
 
Ao mesmo tempo que Portugal era entregue aos caprichos dos generais Franceses, o Brasil, ou pelo menos o Rio de Janeiro sofreu mudanças profundas com a chegada de D. João. “A chegada da família real produziu uma revolução no Rio de Janeiro. O saneamento, a saúde, a arquitetura, a cultura, as artes, os costumes, tudo mudou para melhor – pelo menos para a elite branca que frequentava a vida na corte. Entre 1808 e 1822 a área da cidade triplicou com a criação de novos bairros e freguesias. A população cresceu 30% neste período, mas o número de escravos triplicou, 12 000 para 36 182. O tráfego de animais e carruagens ficou tão intenso que foi preciso criar leis e regulamentos para discipliná-los.”. Neste paragrafo da página 166, se percebe a desigualdade como elemento importante do Brasil da monarquia, não devidamente enfrentada no Brasil de hoje. 
 
No filme Carlota Joaquina – A Princesa do Brasil, da atriz e cineasta Carla Camurati, a esposa de D. João aparece como quem odeia o Brasil. No livro, aparece como quem também odiava o marido com quem casou por procuração e claro, por interesse econômicos entre o trono português e o trono espanhol. Tiveram vários filhos e depois passaram a viver em casas separadas. Isto depois de tramar com os desafetos do marido por sua queda. Carlota Joaquina detestava o Brasil. Em 1807, resistiu o quanto pôde sair de Portugal. “Neste país nada resiste”. Escreveu depois de chegar ao Rio de Janeiro. “Até as carnes salgadas não duram nada. Logo apodrecem”. Ao embarcar de volta para Portugal, em 1821, tirou a sandália e bateu contra um dos canhões da armada do navio: “ Tirei o último grão de poeira de meus pés”. Teria dito. “Afinal vou para terra de gente!”. 
 
Em um tempo que a Revolução Francesa e a independência do Estados Unidos inspirava revoluções republicanas. O Brasil se manteve unido. Mas, não por falta de tentativas republicanas. As revoltas foram abafadas com violência pelo governo central. No Recife em 6 de maio de 1817, chegou a ser proclamada a república. “O novo governo republicano permaneceu no poder até 20 de maio. Durante esse período, todas as tentavas fracassaram. Na Bahia, o enviado da revolução, José Inácio Ribeiro e Lima, o Padre Roma, foi preso ao desembarcar e imediatamente fuzilado por ordem do governador, o Conde dos Arcos. No Rio Grande do Norte, o movimento conseguiu a adesão do proprietário de um grande engenho de açúcar, André de Albuquerque Maranhão. Depois de prender o governador, José Inácio Borges, e manda-lo para o Recife, Maranhão ocupou a Vila Natal e formou uma junta governativa, que não despertou o menor interesse da população. Foi apeado do poder pouco dias depois”.  Os movimentos republicanos no Rio Grande do Sul também foram sufocadas. 
 
A leitura da obra de Laurentino Gomes, traz os olhares dos visitantes de outros países sobre o Brasil de 1808, dos documentos históricos da época e perfil de personagens centrais da corte, numa linguagem descomplicada. Bem como, e contextualização geopolítica daqueles anos de guerras no velho mundo exploração do novo mundo. Das américas.  
 
 
Depois de 13 anos no Brasil, o governante medroso, filho de D. Maria I – A Rainha Louca, voltou à Portugal. O Brasil permanece desigual e cheios de contraste, mas unido. Caso tivesse sido divido como ocorreu com a América espanhola, o País líder da América do Sul, talvez fosse a Argentina. Tudo leva a crer que a presença da Família Real no Brasil, ajudou a mantê-lo unido. Com dimensão continental.  Laurentino Gomes escreveu mais três livros. Por enquanto fica a dica para a leitura de 1808. Os demais, são temas para outros goles, outras páginas e outras colunas.