Bia Crispim

25/09/2020
 
Àquele cidadão de bem, cristão
 
 
Na coluna passada, publicada em 18 de setembro, eu disse que “Quando eu digerir toda a negatividade com que fui bombardeada essa semana, talvez eu consiga escrever sobre... Valadões, Gilberto Braga, histórias de espancamento e violência contra travestis...”
 
Pois bem, a digestão ocorreu.
 
E, ao contrário do que muitas pessoas que estiveram presente durante essa última quinzena acreditaram e até sugeriram, eu não vou escrever uma crônica malcriada nem vingativa. Mas vou bombardear com todas as perguntas que povoaram minha cabeça nesses dias àquele cidadão de bem, cristão, que se julga superior, mais digno e com garantias de “salvação” desse mundo terreno do que eu ou do que qualquer pessoa LGBTQI+.
 
O que faz você acreditar que um LGBTQI+ não possui fé, nem crença, nem o direito de praticá-las nos espaços em que elas possam ser ritualizadas?
 
O que faz você culpar indiscriminadamente e irresponsavelmente os homens gays pela existência e a disseminação da AIDS?
 
Como uma pessoa que se julga líder religioso coloca pessoas contra pessoas, prega o ódio e o preconceito em vez do amor e da união?
 
Como pode preferir insuflar sentimentos tão contrários àqueles que diz seguir? 
 
E você, que se intitula comunicador, o que faz você acreditar que pode usar sua voz para destilar violência contra gays?
 
O que faz você achar que dois homens (bigodudos, como ouvi serem caracterizados) não podem se beijar diante da boate em que eles frequentam, ou em qualquer outro lugar?
 
O que faz você acreditar que tem direito de manifestar gratuitamente seu ódio e espancá-los por essa manifestação gratuita de amor?
 
O que faz alguém usar de violência contra uma travesti somente por ela estar na rua vivendo livremente sua vida ou fazendo seu trabalho? 
(Infelizmente muitas de nós somos compulsoriamente levadas às ruas e à prostituição, como se esse fosse nosso único caminho e destino. E se você não se dá conta, suas atitudes só colaboram para que essa realidade continue.)
 
O que faz você acreditar que é melhor que qualquer um de nós, LGBTQI+?
 
O que você quer quando nos descrimina, nos marginaliza, nos invisibiliza? Mostrar que é seguidor de Cristo?
 
Mostrar que é baluarte dos bons costumes e da moral? Mostrar que é bondoso? Que é caridoso? 
 
Acredita que essas atitudes realmente aproximam você da sua tão sonhada “salvação”?
 
Acha, de verdade, que um LGBTQI+ destrói as famílias? E o que você me diz do pai que expulsa seu filho ou sua filha de casa porque o/a descobre gay, lésbica ou trans? 
 
O que dizer do pai que promove cenas de violência doméstica diante dos filhos? Ou ainda, que traem suas esposas com quantas amantes julgar oportuno? 
 
Não seriam essas e tantas outras atitudes daquele cidadão de bem, cristão que realmente destroem famílias?
 
Pare. Pense. Não deboche. Não insufle ódio. Não dê informações erradas. Não discrimine. Não odeie. Não julgue. Não expulse. Não violente. 
 
Se não gosta, se não entende, se não aceita. Respeite.
 
Se não tem como contribuir com nossas tão doloridas e deliciosas existências (porque como diz Caetano “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”), cale-se. 
 
Engula seu ódio. Envenene-se com ele. Mas não use mais sua fala, suas ações, seu rancor, sua incompreensão, sua intolerância, sua falta de respeito, de empatia e de amor ao próximo para nos diminuir, nos condenar e nos violentar.
 
Já tomamos consciência de que podemos ir mais longe do que o lugar de ostracismo e inexistência que você, dito cidadão de bem, cristão acreditou e nos fez acreditar que era nosso.
 
 Nosso lugar é onde quisermos estar.