Bia Crispim

02/10/2020
 
Aninhamento subversivo
 
Entre 2011 e 2015, eu produzi muito. Escrevia quase todos os dias, ou mais de uma vez por dia. Muito do que eu escrevia vinha do estímulo de meus amigos ou das vivências pelas quais eu estava passando naquela fase da minha vida. Poemas confessionais, crônicas, contos que vinham de motes ofertados por amigos ou uma cena qualquer... Boa parte foi publicada em um blog que até meados desse ano havia sido esquecido... Negligenciado, até! 
 
Numa certa ocasião, minha queridíssima amiga, Vannila Vogue, presenteou-me com a brilhante expressão: "aninhamento subversivo", que, em suma, expressava minha eterna necessidade de estar junto, de andar em bando, de viver aninhada em alguém, em “alguéns”. E daí, nasceu o texto que você lerá em seguida!
Espero que no final da leitura, você também deseje estar aninhado/a, subversivamente! (RISOS)
 
Aninhamento - palavra que desperta a minha mais profunda vontade de estar perto, de prolongar-me no outro, de fazer parte dele, de lhe/me dar continuidade e estendermo-nos em contínuos momentos de colisão.
 
Ninho - do entrelaçado, da tessitura, do emaranhado. 
Conexão desconexa de pernas, pelos, braços, saliva e suor, membros, partes, labirinto de gente que não finda. Completude e brechas. Preenchimento e espaço. Lugar de calor, por onde a vida eclode.
Aninhar-me em todos, em mim, nos meus pensamentos e desejos e nos de quem os tiver.
Vontade, desejo de partir-me e unir-me, de sair da casca do ovo, mas não abandonar o calor das asas.
 
Aninhamento de ninho!
Ninho é família.
Ninho são amigos.
Ninho somos nós dois ou três ou quantos couber.
Ninho é união, aconchego, descanso.
 
Aninhamento é ninho!
É palavra subversiva. De amplitude semântica, de várias faces, de várias imagens. 
Vejo todas elas. Sinto todos os que já se aninharam outrora. (Muitos!)
Gosto, preciso, amo!
É parte de mim: o ninho, o aninhamento e a subversividade.
 
Cotidiano - estar perto, colada, tocando, beijando, afagando, olhando profunda e fixamente através dos olhos para atingir a alma alheia.
Encaixe entre o que sou, o que me pertence e aos mundos que não são meus.
Aninhar é permitir-me descobrir, entregar-me, ser descoberta e avessada.
É sentir o universo invadir-me para que me sinta parte dele.
Bicho sem asas - prefiro o ninho.
Acolhedor, amoroso, lugar perfeito para se grudar e se fazer um.
Bola de vida pulsante que palpita sangue, amor, companheirismo, volúpia, presença, apoio, amizade, sensação de único, pleno e completo.
 
Aninhamento - palavra que desperta a minha mais profunda vontade de nunca precisar me sentir só.
 
(Currais Novos, 16 de abril de 2012)