Daniel Costa

06/10/2020
 
A NORMALIZAÇÃO DA MORTE E SEUS CULPADOS
 
 
Parece que o mundo vai acabar. As pessoas estão a correr descabeladas em busca de aproveitar o último dia, tal como na música de Paulinho Moska: “Meu amor, o que você faria se só te restasse um dia?/ Se o mundo fosse acabar/Me diz o que você faria/ Corria pr’um shopping center/ Ou para uma academia?/Pra se esquecer que não dá tempo/Pro tempo que já se perdia”.
 
Bastou uma variação para menos no número de mortes diárias por Covid, que a rapaziada resolveu abrir as portas de suas casas e seguir às ruas. Para um bocado de gente, a felicidade, nesses tempos de pandemia, passou a significar sair da toca a qualquer custo. É urgente ir às praias, frequentar bares, supermercados e hotéis (e ai de quem se posicionar contra isso).
 
Qualquer um que resolva soltar o verbo para renegar esse flerte com a morte em busca de prazer, é logo visto como o novo eremita, ou o hipocondríaco pessimista que se recusa a desfrutar la bonne vie.
 
Na visão da turma, todos devem se acostumar ao novo normal, mesmo que centenas estejam a enterrar seus parentes e os hospitais encontrem-se ocupados num percentual de quase cinquenta por cento. A verdade sem roupa é que a morte foi normalizada. Ou banalizada, como prefere dizer Tarcísio Costa.
 
Não se pode retirar dos ombros de tais pessoas a culpa por essa normalização das idas aos cemitérios. Elas sabem muito bem que a pandemia permanece mordendo nossos calcanhares. E flanar em supermercados ou frequentar bares às sextas à noite, nada mais é do que o inegável egoísmo de quem só consegue enxergar o seu próprio bem-estar, mesmo que isso possa significar o extermínio dos outros.
 
 Também não é possível esquecer a responsabilidade do Estado brasileiro. Afinal de contas, foi o governo federal que estabeleceu uma política de morte ao maquinar estratégias que levam a população a naturalizar a pandemia, como se falecer de Covid fosse algo inevitável devendo fazer parte dos cálculos de quem vive. As pessoas foram incitadas a se jogar na fogueira.
 
Quando se transmite a mensagem de que não é necessário usar máscaras, ou obedecer ao distanciamento social; e quando se diz que consumir medicamentos como cloroquina é suficiente para aplacar o vírus, o governo está a atuar como uma máquina de ceifar vidas, livrando-se das pessoas como alguém faria com a carcaça de gado doente.
 
Ou melhor, praticando uma espécie de homicídio premeditado num movimento similar àquilo que o filósofo camaronês Achille Mbembe chama de necropolítica, que nada mais é do que a morte como estratégia e efeito do poder. O controle do Estado sobre a morte das pessoas.
 
Aqui por esses lados dos trópicos, enfim, os culpados pelas mortes por Covid e sua naturalização já são bem conhecidos.