Bia Crispim

09/10/2020
 
Uma aula para o ministro da educação
 
 
Em entrevista publicada no O Estado de S. Paulo, no último dia 24 de setembro desse ano, o então ministro da Educação, Milton Ribeiro, que é pastor presbiteriano, fez algumas declarações, no mínimo desastrosas, sobre orientação sexual e a carreira de professor. Sobre tais declarações, julgo ser necessário que o ministro volte aos bancos escolares para aprender algumas coisas.
 
Então vamos começar a aula, tomando como base tais declarações. (Ou seria melhor chamá-las de desastres?!)
 
Segundo a entrevista, o ministro disse: "O adolescente que muitas vezes opta por andar no caminho do homossexualismo (sic) tem um contexto familiar muito próximo. São famílias desajustadas, algumas. Falta atenção do pai, falta atenção da mãe. Vejo menino de 12, 13 anos optando por ser gay, nunca esteve com uma mulher de fato, com um homem de fato, e caminhar por aí".
 
Primeiro desastre: OPTA. Ninguém opta por ser homo, hetero, bi, trans... As pessoas só nascem com desejos e modos de ser, de sentir e de se auto representar de formas distintas e particulares.
 
Segundo desastre: ANDAR NO CAMINHO: De onde ele tirou essa ideia de que ser homossexual ou trans é traçar um caminho de tijolinhos amarelos em busca de Oz ou de sabe-se lá que lugar... Nossas trajetórias de vida, ministro, nossos caminhos só são dolorosos e sempre mal vistos e mal interpretados porque existem pessoas como você, que criou sua rota e a impõe aos outros como se só ela fosse a correta.
 
(O mundo é feito de muitos caminhos, bifurcados, às vezes. Aprenda!).
 
Terceiro desastre: HOMOSSEXUALISMO: “o sufixo "ismo" refere-se a doença, e a Organização Mundial da Saúde retirou há 30 anos a palavra da Classificação de Doença”, como aponta a reportagem e o conhecimento científico. 
(O termo correto é homossexualidade, senhor ministro!)
 
Quarto desastre: FAMÍLIAS DESAJUSTADAS. Qual foi essa pesquisa que ele diz existir que comprova isso? ... “A relação entre contexto familiar orientação sexual não se ampara em nenhuma linha de pesquisa.”, afirma a matéria. E se toda família desajustada fosse uma espécie de chocadeira para filhos LGBTQI+, senhor ministro, ser hétero seria minoria nesse país!)
 
Nessa terrível e descabida entrevista, o então ministro ainda disse ter 'certas reservas' com relação a professores transgêneros, insinuando que nossa presença (digo nossa porque sou uma mulher trans e sou educadora) pode influenciar os alunos a “andarem por esse caminho”. (Tenho reservas quanto a pastores como ministros da educação – principalmente quando ele não tem conhecimento do que fala). 
 
De acordo com a reportagem “A homofobia é um problema expressivo na escola. Pesquisa de 2016 mostrou que 73% dos jovens de 13 a 21 anos identificados como LGBT foram agredidos verbalmente na escola em 2015 por causa de sua orientação sexual. É o maior índice entre seis países da América Latina onde a pesquisa foi feita.” E as falas distorcidas e mal fundamentadas do ministro só reforçam esses índices e a marginalização da comunidade LGBTQI+.
 
Não contente com tantos desastres, ele ainda disse que "hoje ser professor é ter quase uma declaração de que a pessoa não conseguiu fazer outra coisa".
Bom... Sobre isso, ele esqueceu que há pessoas que se tornaram educadoras por vocação. Que estudaram para isso, que estudam para isso, que continuam estudando para isso e que não fizeram outra coisa porque quiseram ser educadores.
 
Mas provavelmente o senhor ministro deve pensar que vocação só há para ser pastor de uma igreja qualquer. Por isso ele tornou-se um. Acho que não sobrou muitas alternativas para uma pessoa tão despreparada quanto ele. 
 
Não é mesmo, senhor ministro?!