Wellington Duarte

10/10/2020
 
Mourão e a democracia potoca da república da sarjeta
 
 
O general da RESERVA, Hamilton Mourão, alçado da condição de general encrenqueiro a vice-presidente da República Bolsonarista, é uma figura tosca. Tenta se apresentar como um “moderado”, diante do bucéfalo que ocupa a Presidência, com um linguajar que se pretende acadêmico, mas volta e meia volta às suas origens. É um militar saudosista da Ditadura que meteu esse país em 21 anos de trevas.
 
A última do general foi a de elogiar o sombrio coronel Ustra, torturador sádico, que desceu ao Inferno em 2015, como um “homem honrado que respeitava os direitos humanos”. Esse tipo de comentário, embora seja normal para esse tipo de gente, é uma especial afronta para quem defende a frágil democracia brasileira. Para que não se tenha dúvida, destaco a frase do Mourão sobre Ustra, retirado de uma entrevista que o mesmo concedeu ao repórter da DW, Tim Sebastian, publicado no GGN (https://jornalggn.com.br/politica/mourao-elogia-torturador-da-ditadura-ustra-respeitava-os-direitos-humanos/):
 
“Então o coronel Brilhante Ustra foi injustamente acusado, e o senhor também pensa que ele foi um herói, apesar dos 500 casos de tortura que foram atribuídos à unidade dele? (Repórter)
 
O que posso dizer sobre o homem Carlos Alberto Brilhante Ustra, ele foi meu comandante no final dos anos 70 do século passado, e era um homem de honra e um homem que respeitava os direitos humanos de seus subordinados. Então, muitas das coisas que as pessoas falam dele, eu posso te contar, porque eu tinha uma amizade muito próxima com esse homem, isso não é verdade.”
 
Mourão é o arquétipo do cidadão de classe média brasileiro, que engoliu com sofreguidão o discurso da Lava Jata; do heroísmo do Torquemada Moura; dos golpistas de 2016; das mentiras pusilânimes espalhadas pelo Gabinete do Ódio e por setores evangélicos, que tem uma especial idolatria pelo Deus-Dinheiro. Ele é o “passa pano”, que tenta justificar todas as barbáries do atual governo a ponto de dizer que a política criminosa de Bolsonaro no combate a pandemia “foi muito boa”, ressaltando os 4 milhões de curados e escondendo os quase 150 mil MORTOS.
 
Mourão é, por conseguinte, o “normal” da classe média? Pode parecer exagerado, mas segmentos da classe média, assim como amplos setores da sociedade brasileira, tem dificuldades em definir, basicamente, o que é DEMOCRACIA. Para muitos é “ter eleições e parlamento funcionando”; para outros é o “rodízio de poder”; para alguns é ter “liberdade de pensamento” e, esticando a definição “liberdade de imprensa”, e por aí vai.
 
O conceito de “democracia”, entretanto, não é tão claro, cabendo diversas versões e mesmo a mais aceita, a dos liberais, de DEMOCRACIA REPRESENTATIVA, não se sustenta em termos “democracia mais adequada” porque simplesmente não existe uma relação direta entre democracia e capitalismo, aliás o capitalismo deformou o conceito imaginado pelos revolucionários franceses e mesmo a “democracia americana” é uma piada desde o seu nascedouro.
 
Mourão tem seu próprio conceito de “democracia”, que parece ser aquela “supervisionada democraticamente” pelas forças armadas que, ao invés de produzirem a hidroxicloroquina, poderiam ter ajudado muito mais nesse momento de crise. Mourão, Heleno et caterva, que infestaram o Estado brasileiro e apoiam e sustentam o elemento que está na presidência, concebem a democracia como algo a ser tutelado.
 
Após 35 anos de uma democracia claudicante, em que as eleições se tornaram verdadeiros circo dos horrores, estimulados pela própria sociedade que, a bem da verdade, nunca viu florescer qualquer tipo de democracia mais liberal, nesse país, esta (a democracia) veio a ser aprisionada por um golpe jurídico-parlamentar em 2016, que culminou com essa tragédia bolsonarista, que atingirá o país por décadas.
 
O sonho momentâneo de termos uma democracia mais próxima dos trabalhadores, ocorrido basicamente entre 2003 e 2014, se tornou um pesadelo autoritário, que, se tiver sucesso, mergulhará novamente esse país noutra tragédia social.