Emanuela Sousa

11/10/2020
 
A Dádiva do Esquecimento
 
 
O tempo é veloz... Ele faz a gente seguir a diante e esquecer de levar consigo algumas coisas na bagagem.
 
Da voz, 
Da rosto,
Dos momentos.
 
E isso me parece bom, mas ainda me deixa intrigada. Foi no meio da confusão da semana, estresses e afins que disparou em mim uma frase "estou começando a esquece-la". 
Senti o impacto das palavras na hora,  arregalei os olhos. O copo de refrigerante que estava sobre a mesa foi empurrado para o lado... Estava com uma expressão surpresa; acabava de me dar conta que estou começando a esquecer de como é aquela risada, o rosto feminino, das fotos ainda salvas no meu celular.  Seu nome está ficando cada vez menos comentado nas rodas entre amigos... Será que estou seguindo rumo ao caminho do real esquecimento? 
 
Virei a página do calendário de mesa.
 
É 1 de outubro. Não me senti mais a mesma. Mais um mês que se inicia, em direção ao mês do meu aniversário e menos um para encerrar o ano. Isso te alivia ou assusta? Quantas coisas e pessoas você esqueceu só neste último mês? 
 
Cortei o cabelo na terça feira passada e aproveitei para visitar uma amiga que há muito tempo não visitava, fiz algumas compras on-line, entre elas o novo livro do escritor Kaio Bruno Dias. Rabisquei a última folha do meu caderno com frases, todas ainda sem sentido, também fiz alguns desenhos no canto da página, porém, para minha surpresa nenhum deles remete o rosto daquela moça... Apenas encontrei um texto que há um tempo atrás eu havia escrito sobre amnésia. O texto falava poéticamente de como seria bom acordar e não lembrar de nada do que te feriu. Neste dia eu havia acordado melancólica, com uma saudade aguda no peito, como se tivesse sofrido um martírio, passaria a maior parte do dia escrevendo sobre alguma solução que me livrasse da tristeza momentânea e a amnésia para mim, seria então a única saída... Ledo engano. 
 
Ensaiei por cerca de trinta dias a sua volta, fantasiei diversas vezes um diálogo que pudesse te fazer mudar de ideia,  mas você demorou tanto que rasguei algumas folhas, virei a página, deixei as portas abertas e novas pessoas chegaram aqui e acabei  esquecendo de sinalizar que estava à sua espera.
 
Eu quase havia esquecido que é o tempo que se encarrega de deixar tudo no esquecimento. Ele passa entre nossos dedos e nos puxa para o novo cenário, afinal, novas histórias precisam ser escritas e vividas. 
 
O tempo é quem coloca o band-aid na ferida, ele vem para encobrir o que dói, o que te sangra. Completado o ciclo da cicatrização, você vai lembrando cada vez menos, esquece aos poucos do rosto, da presença, do sorriso e de outras coisas que foram necessárias à serem deixadas para trás. 
 
Se você já está passando pelo processo da cicatrização, apenas sorria! 
 
Você está aprendendo a esquecer. :)