Ana Paula Campos

11/10/2020
 
Quem era Ana Paula há dois anos
 
 
 
Vozes-Mulheres 
 
A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
        e
        fome.
 
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.
 
    (Conceição Evaristo. Poemas de recordação e outros movimentos, p. 10-11).
 
 
Essa foi a pergunta retórica que uma amiga me fez durante uma conversa enquanto discutíamos as mudanças de rumo de nossas vidas. A resposta óbvia para o título deste texto deveria ser “ninguém”? Ana Paula não era ninguém antes de se destacar nos espaços midiáticos? O fato é que fiquei pensando nisso, o que me levou a outras perguntas: quem autoriza nossos discursos? Quem nos valida como intelectuais? Bem, vou começar respondendo à pergunta que intitulou a crônica.
 
Não se iludam, meus ilustres leitores. A pessoa que ergue a voz agora não surgiu do nada, tão pouco se fez do dia para a noite. Nós, mulheres negras, somos forjadas antes mesmo da nossa concepção. Quem somos é definido ainda na nossa infância pelos aprendizados forçados a partir das nossas experiências cotidianas. Nossa identidade é construída paulatinamente durante a adolescência e segue pela vida adulta. Quem eu sou hoje é um reflexo de tudo que vivi, as dores que senti e as batalhas que travei até mesmo sem saber contra quem eu estava lutando.
 
Conceição Evaristo nos lembra que toda mulher negra é uma intelectual porque carrega consigo lições interseccionais que só ela consegue explicar, mas não é assim que somos informados. Crescemos acreditando que mulheres negras só podem ocupar dois papéis específicos: a subalterna ou a hipersexualizada. E quando rompemos com esse “destino”, causamos desconforto social: afinal, quem é essa mulher? De onde ela saiu? Quem ela pensa que é para me jogar na cara verdades que tento com tanto esforço escamotear? 
 
 Quando a crítica e teórica indiana Gayatri Spivak questiona “Pode o subalterno falar?”, ela nos lembra o que nossa mais velha, Conceição Evaristo, afirma de forma contundente: “Nossa fala estilhaça a máscara do silêncio.” Não se enganem. O meu silêncio de antes não significou tempo perdido. A cada dor sentida que me obrigava a entender qual meu lugar no mundo, uma parte de mim era esculpida. Se hoje me levanto e ergo minha voz, é porque não suporto mais guardar tudo dentro de mim. É porque já fui silenciada demais e agora preciso gritar para o mundo que eu tenho o que dizer. Hoje percebo que meu silêncio nunca me protegeu. Já tive medo, hoje não mais. Reconheço que ao meu lado ecoam todas as vozes insubmissas das mulheres que lutaram antes de mim. Os discursos combativos de Lélia Gonzales, Neuza Santos Souza, Beatriz Nascimento e tantas outras me lembram que eu não tenho o direito de me acovardar. Se antes a leitura era para mim um deleite, hoje é condição de sobrevivência. Leio muito e muito mais porque é na sabedoria ancestral do meu povo que encontro forças para ficar de pé. 
 
Estive em silêncio por muito tempo. O fato é que insisti em não aceitar seguir o curso das águas. Perdida em um não lugar, fazia as mais obscuras escolhas na tentativa de preencher meu vazio. A torrente de conhecimento era facilmente substituída por correntezas de lágrimas. Tentar barrar o curso do rio provocava enchentes dentro de mim que transbordavam pelos meus olhos. 
 
Quando finalmente deixei a natureza seguir seu curso, fui golpeada pela vida. Senti-me perdida, derrotada e sozinha. Mas imediatamente fui tomada pela mão da minha mãe dourada:
 
Então, disse Oxum: "Saiba esperar! Tenha calma, não cabe a você saber o tempo e o momento de cada coisa que a ti determinei. Você precisa perseverar, acreditar e ter fé. Precisa ter paciência com seus próprios questionamentos, aguentar com maturidade e firmeza suas próprias escolhas. Na dor, permaneça firme. Na humilhação, permaneça forte. Nas incertezas, sempre confie. Silencie as vozes dentro de você que te dizem o contrário. Ter fé é justamente acreditar que sim, quando tudo diz não. O futuro não acontece repentinamente, ele é semeado hoje, ele é semeado no caminho”.
 
É verdade, senhoras e senhores, que me reconheci como mulher negra há pouco tempo, mas a minha história não começou aqui. Não preciso de diplomas ocidentais para legitimar quem eu sou. Não ando com a coroa nas mãos. Ando com ela na cabeça, e é honrando minha missão ancestral que me levanto, ergo minha voz e digo com toda certeza: 
 
ESTOU SEGUINDO RUMO AO MAR!