Bia Crispim

16/10/2020
 
Flor de mandacaru
 
Na coluna dessa semana fiz um novo resgate. Trago à tona um texto de 2011* que fala sobre quem eu me tornei, a partir de minhas origens. Na semana da criança, é bom, sendo adulta, lembrar todos os elementos que o tempo nos presenteia ou nos tira e que vão compondo nossa contínua transformação...
 
Em um dia de Março, invernada, o mandacaru floriu. E no meio de braços e espinhos e um sol de rachar, nasci, feito flor de mandacaru.
 
Aprendi cedo a ser piaba dentro dos açudes e a reconhecer o cheiro da terra molhada que faz a jurema ser fênix. Renascida das cinzas, ela me ensinou a ter força. (Muita!)
O céu azul de dias quentes, banhado de nuvens brancas e enormes, dava lugar a um manto de estrelas cintilantes, à noite. Meus dentes brilhavam em um sorriso quando o céu estava assim.
 
E diante de uma fogueira, festejando São João e seus sabores, nutriam-me de poesia, fogos, beleza e gostosuras do Sertão.
Em noite de lua, bolandeira, portal para mundos que minha mente fértil de criança criava.
 
As serras ao longe me arrodeavam, eram a grande muralha do castelo onde eu, lagartixa espichada ao sol, desejava explorar.
O Sertão "brabo"  - como dizemos aqui - me fez jurema, me fez flor. 
 
Do mandacaru herdei, também, os espinhos e da jurema, o verde que se disfarça de cinza, protegendo-se. Camaleão, “camaleoa”.
Corre nas minhas veias a água caudalosa dos rios perenes, que às vezes, em estiagem, se acalmam.
 
O cheiro do estrume... As vacas e bois e cabras e bodes e galinhas, vêm do sítio, das panelas, da minha infância. Sabores e perfumes inconfundíveis... A carne de sol, a manteiga, o queijo. A manga, o caju, o cajá, a castanha, a seriguela, doces muitos, cocadas de vovó, goiaba e goiabada, peixe frito, leite de coco, limão, sal e cachaça... Humm! Costelinha de porco...
 
Tudo se misturou em mim!
 
A música cantada por mamãe e tocada por papai... A confraternização em (grande) família... Virei festa, forró, ritmos. 
 
O homem bruto do Sertão de Caicó me viu mulher e me aceitou e "buliu" comigo... E casou e se separou, porque, afinal, nem tudo é para sempre.
Fui feliz no Sertão! Sou feliz no Sertão!
 
Aqui brotam grandes amizades, realizações difíceis como a terra, como o tempo, mas resistentes, como a imburana, como as pedras e os serrotes.
Rica de minérios, esta terra me energiza. Na pele sou turmalina, bauxita, scheelita... No coração, Caicó, Cruzeta, Currais, Acari, Parelhas... 
 
Na alma, sou gado, vaqueiro, fé, sou Sant'Ana. Sou Seridó, Açude do Pico, Dourado, Gargalheiras, Itans e Boqueirão. Sou galinha caipira e macaxeira. Sou cordel e poesia.
O Sertão ensinou-me e eu tornei-me professora. Passei a não ser mais eu, a ser muitos/muitas e a me dividir. E como o Sertão, virei parte de muita gente. "Sertão - Casa grande", como diz José Bezerra Gomes.
 
Eu, Sertão, Seridó, o mundo. Ensinamentos de Rosa, Bezerra e Zila.
 
Paisagens que me compuseram, que me identificaram; que me admiraram e acolheram, como flor de mandacaru, brotando nas estradas por onde transito/transitei a vida toda, protegidas por cercas de pedra - herança de Holanda(!?).
 
O Sertão habita em mim. Percebes? 
 
E fez-me o que sou: mulher, forte, sertaneja, Seridó, Sertão.
 
* Para essa coluna, publicada pelo Potiguar Notícias, o texto sofreu algumas alterações. Originalmente, ele foi publicado em 09 de novembro de 2011 em www.biacrispimpedacosdemim.blogspot.com.br.