Eliade Pimentel

22/10/2020
 
Certeza mesmo só temos da morte
 
Hoje em dia com tanta informação disponível na internet, a palavra da gente não vale mais quase nada. Principalmente com as pessoas mais jovens. Eu passo por isso direto. Digo algo, baseada em algum pilar, como ter sido testemunha do que estou afirmando – ou às vezes, a própria internet, em site no qual eu confio - e ouço a frase: tem certeza? Normalmente eu dou risadas, falo de onde tirei a “minha certeza”, a qual eu mesma reconheço não ser tão absoluta assim. 
 
E outras vezes, quando resolvo discutir algo, respondo que só o faço quando tenho certeza. E isso vale para as vezes em que eu, por exemplo, olhei a tábuas de maré antes de ir à praia e afirmo que a maré está cheia, ou subindo, ou descendo. O companheiro, libriano, pergunta invariavelmente: tem certeza? No começo, eu apenas dizia que sim, que vi no site que eu sempre consulto. Agora a vivência já me permite ser um pouco irônica. E digo: já, já você terá a certeza. Ou às vezes nem respondo, só penso com um sorriso enigmático no canto da boca.  
 
Porém, recentemente, ouvi esse questionamento da minha filha sobre algo relacionado a uma planta, se era de sol ou de sombra, a qual eu respondi que a mesma gosta de luz solar intensa. Diante da dúvida dela, comecei a gritar e bradei em tom de ironia: quer ter certeza, olhe no Google... Naquele momento, apareceu uma borboleta azul gigante e comecei a dizer frases meio sem sentido como: olha só, que benção, uma borboleta azul gigante! E eu que “tinha certeza absoluta” de que na nossa região só havia um tipo de borboleta azul, uma pequenina, comecei a dar graças a Deus porque minha certeza caiu por terra, tal era a beleza daquela borboleta. 
 
Não por acaso, a borboleta é um animal que se metaformoseia. Quando eu era criança, também perguntava se a professora tinha certeza disso. Imagine, uma lagarta virar aquele inseto tão atraente! E a borboleta é um símbolo de que tudo na vida pode ser diferente do que já foi um dia. Nossa opinião, por exemplo. Nossas verdades. E nossas certezas. E desde aquele dia eu fico a pensar naquela imensa borboleta que apareceu no exato momento em que eu me indispunha com minha filha, por seus questionamentos e suas incertezas. Por ter 17 anos, ela é meu espelho do que os jovens de hoje em dia passam. E pensam. 
 
Muitas informações, muitas dúvidas e muitas cobranças, que diga-se de passagem ocorrem entre eles mesmos, porque de minha parte só cobro que faça algo por si mesma, nem que seja comer e claro, estudar e arrumar as coisas está nesse rol, que eu não sou de ferro. Certezas, mesmo, parece que só eu as tinha quando adolescente. De que iria ser jornalista, por exemplo. Ah, essa era uma certeza mais do que absoluta. E outra, que lutaria até o fim das minhas forças para manter na família o terreno que temos em Pium. (Deu certo).      
 
O fato é que certeza mesmo a gente só tem uma: da morte. Nascemos, vivemos e morremos. Não sabemos dia, nem hora. Mas temos a certeza de que não viraremos semente. Todo o resto que vivemos pode sofrer mudanças. A começar pelas verdades que ouvimos. Ou nossos sonhos, projetos, etc e tal. Eu me permito mudar de opinião, de gostos, de desejos. Eu me permito mudar meus acessórios, já fui do prata para o dourado sem me sentir estranha. O que não muda em mim são as minhas convicções relacionadas ao consumo (cada vez mais consciente), sobre a importância dos movimentos sociais e da valorização das tradições.
 
Quando eu digo tradições, não me refiro a fazer tudo igual ao que fui submetida. Eu contesto quando não vejo sentido em manter certas tradições, como as que estruturaram o machismo, dentre outras. Refiro-me à valorização dos povos tradicionais, como os indígenas, que tanto sabem sobre a nossa fauna, nossa flora, nossa terra. Refiro-me aos agricultores, que sabem que feijão com rapadura dá sustança, e a certeza deles é advinda da própria subsistência. Não precisam ter alguém lhes afirmando acerca dos nutrientes dos referidos alimentos, pois eles já comprovaram na prática, levando a marmita e o doce para o roçado e ganhando energia para arar a terra, semear e colher. 
 
Eu sei que água oxigena a massa do bolo. E quando eu quero deixar um bolo mais leve, eu substituo parte da gordura por esse ingrediente. Ninguém me deu essa dica. Eu apenas sei que a composição da água é duas partes de hidrogênio e uma de oxigênio. É química pura, daquelas que a gente aprende na escola. Quando eu justifico a necessidade de estudar até mesmo aquilo que a gente não vê sentido, essa certeza advém desse tipo de conhecimento que a gente coloca na prática. Mas, tenho certeza de que se eu passar esse pulo do gato para uma pessoa que queira aprender uma das minhas receitas, ela vai me olhar com cara feia, vai dizer que o bolo vai ficar aguado e ainda vai me dizer: tem certeza? 
 
Em tempo, eu gritei, esbravejei quando a filha me questionou, porque não foi a primeira vez. E às vezes eu fico chateada com a falta de fé que a juventude parece depositar nas pessoas mais velhas. Devo estar errada, mas será que para tudo o que eu digo – não faça isso, ou faça dessa forma - eu tenho de dar toda a explicação? Querida, não ultrapasse a linha X porque você pode cair no precipício? Ela disse que sim, pois pareço apenas mais uma pessoa autoritária quando eu simplesmente digo não, ou sim. Eu bato palmas para essa turma que não aceita a minha verdade como absoluta. Porém, sinto que falta aos jovens mais humildade para entender que nem tudo está no Google.