Bia Crispim

23/10/2020
 
Uma história de poliamor: Dois homens e a mulher
 
Numa tarde chuvosa de encharcar o espírito, duas almas molharam-se e descobriram-se... Afinidade. Naquela tarde, na rua, rindo das goteiras nas paradas de ônibus e do guarda-chuva que não os protegiam...  amaram-se. Haviam ido visitar um grande amigo dela, um ex-namorado dele. A pneumonia o deixara em estado de internação. Era domingo, dia de visita aos doentes. 
 
O moribundo ficara tão feliz com a entrada dela, que já chegou brincando se fazendo de enfermeira, e feliz também com os sentimentos (ainda) compartilhados do outro, que uma energia diferente, quase palpável inundou aquela sala de hospital.
 
Obrigação de bons Samaritanos cumprida! Depois de gargalhadas e fotos e a certeza da recuperação do convalescido, encontravam-se, ele e ela, os visitantes, entreolhando-se por entre a água que desabava. E uma pergunta, não se sabe feita por quem, surgira: - Cinema?
 
- Vamos!
 
E rindo de tudo aquilo e felizes do banho que lavara seus espíritos e corpos, foram.
 
- Lá é melhor!
- Também acho!
 
Que filme assistir? Ele não a conhecia bem. Ela, muito menos. Gostavam de cinema. Era fato! E o filme? Pouco importava: - O que tiver em cartaz! Chegar lá a gente decide! O transporte não tardou e não tardou também saberem-se adoradores de doces e músicas.
 
- Loja de doces, primeiramente?
- Chocolate? 
- Sim!
- E jujuba? Adoro jujuba!
- Batatinha?
- Mesmos gostos, né?
- É!
 
Na bilheteria muitos filmes, mas não demoraram a entrar em acordo, já parecia acordado antes de estarem ali. Era de amor, de família, de criança... E as duas crianças riram e comeram e se sujaram com doces e refri e manteiga de pipoca. Lambuzaram-se de carinho e troca de sorrisos e olhares... Apaixonaram-se! Mas e o coração dele não pertencia ao que havia ficado no hospital?  E o coração dela? De quem era, afinal? As doenças passam, mas o amor fica. 
 
Um dia, curado, o velho amigo-amante-moribundo juntou-se à dupla. E os dois homens que se amaram, (amavam?) descobriram que a amavam, também.  Eles, os dois homens, ela , a mulher! Daria certo aquilo? Amor não devia ser só pra dois? Devia?! Ninguém sabia explicações. Na verdade, nem se questionaram, só perceberam quando a relação já existia. Uma relação a três. Amor gratuito, verdadeiro e puro brotou nos corações de cada um. E ele mesmo se fez entender. Infiltrou-se!
 
Um dia dormiram juntos, naturalmente. E acordaram juntos, mas não se largaram. A cama agora era ninho. E aninharam-se, um dia todo. Como consolidação de um sentimento novo e incomum. A mulher era diferente de quaisquer umas conhecidas por eles na vida, porém, mulher. 
 
Dividia-se entre dois, entre o branco e o preto, o rude e o amoroso, o metódico e o impulsivo, o corajoso e o medroso, a mente e o coração, o aquário e o leão. Um pensa, outro age e ela, boca, sabia usar a palavra e explicava-se e explicava-lhes. Navegava entre eles como sereia em alto-mar...
 
Comeram e beberam da mesma coisa. E tudo eram rosas. Até que alguém se machucou num espinho... Separaram-se? Não! Machucaram-se, mais tão profundamente que o silêncio brotou. Ela, mais sensível, chorou! O rude fora cruel isolando-se. (Ela precisava de palavras, ele era mudez.) Mas, o outro estava ao lado dela e como bom conciliador resolveu agir. Porque já não se sentia feliz, já não nos sentíamos felizes. Não havia mais "três", a trindade rompera-se e o encanto, despetalava-se como rosa que murcha. Três partes incompletas.
 
Unir tornara-se a palavra da hora para o conciliador, que, sensibilizado, usou da arma mais terrível contra o homem rude: - Ela chora! A rudeza fez-se mansidão e sentindo-se, também, incompleto, resolveu unir-se. A mulher, dona da palavra, até então, escrevia com lágrimas.  Então, ouviu um voz que dissera que ainda a amava, um som ainda tímido, mas ouvira... O coração dele era escutado ao longe!
 
- Vamos brigar mais não! Promete? – pediu ela.
 
- Não! Vamos brigar sim. – Respondeu ele prontamente. – Porque foi assim que descobri que amo vocês mais que nunca.
 
Ele abrira um sorriso, ela também... O elo estabelecera-se e eram três novamente: dois homens e a mulher.