Ana Paula Campos

02/11/2020
 
A beleza machuca
 
 
“É ditadura, quanta opressão, não basta ser mulher, tem que tá dentro do padrão. Foda-se o padrão!”
                               Miss beleza universal- Doralyce
 
 
Como de costume, lá vamos nós falar de mim de novo. Ou seria falar de nós? De fato, tem sido assim. Uso este espaço para refletir sobre situações que vivi, e quando o texto é enfim publicado na coluna, recebo vários depoimentos de homens e mulheres que se identificaram e se sentiram contemplades e acolhides na análise. Espero que hoje eu também possa abraçar vocês. 
 
Quem me acompanha nas redes sociais há alguns anos sabe que eu tinha outro perfil no Instagram. Eu era a morena que lutava obstinadamente para ser sarada. Como trabalho dois horários e tenho uma filha (que na época era pequena), aproveitava os dias que ela estava com o pai e fazia o esforço de acordar às quatro da manhã, estar às cinco da manhã na academia para treinar e de lá já corria para o trabalho. Também passei a controlar minha alimentação e praticamente só comia proteínas e alimentos low carb (baixa caloria) algumas raríssimas vezes na semana.
 
Nunca fui adepta de remédios e sou medrosa para cirurgia, então, precisava compensar de outra forma; precisava estar magra; precisava caber nos manequins 40 que eu via nas vitrines. Perdi 2kg, perdi 5kg, perdi 10kg, e quando dei por mim, era uma mulher de 1,73 cm e 65Kg. Eu consegui! Mas consegui o quê, mesmo? 
 
Durante o processo de emagrecimento, eu sentia enjoos frequentes, fadiga e fortes dores de cabeça. Tornou-se rotina recusar convites de sair com amigues porque eu tinha medo de não resistir e acabar comendo algum petisco. Treinava tão pesado, desconsiderando as orientações dos instrutores da academia, que não tardou, comecei a sentir dores nos joelhos, punho, ombros e cotovelos. Minhas articulações entraram em colapso. Diagnóstico: tendinite, epicondilite e condromalácia patelar. Abandonei a academia e engordei muito depois disso.
 
Gorda, passei a sentir vergonha do meu corpo. Eu não ia mais à praia (uma das coisas que mais amo na vida), não saia para happy hour porque “não tinha roupa”, não mantinha mais relações sexuais porque tinha vergonha de ficar nua na frente de alguém. Eu me isolei do mundo. 
 
Até que me descobri negra e compreendi que minha obsessão em ter o corpo perfeito era, na verdade, porque eu não tinha a cor perfeita. Eu não me considerava bonita, mas não tinha clareza sobre qual padrão eu estava buscando. 
 
O PADRÃO ERA SER BRANCA!
 
Contudo, considerando que nossos corpos são encruzilhadas nas quais colidem opressões identitárias e estruturais, não podemos desconsiderar a dor que pessoas brancas e gordas sofrem. Porém, quando racializamos o indivíduo, temos mais uma opressão, agora estrutural, que opera sobre esses corpos. Homens negros mantém o cabelo “baixinho”, o gordo é o engraçado da turma, o magro compra roupas mais largas. Mas o ideal de beleza é sempre mais cruel para a mulher: retinta demais, gorda demais, magra demais, musculosa demais, pelos demais...
 
Quantos afetos deixamos passar por medo de rejeição, quantos momentos deixamos de viver pensando na aprovação de pessoas que a gente nem conhece. O termo EMPODERAMENTO, na verdade, se refere à ascensão cultural, política, econômica e social de todas as pessoas dos grupos acêntricos, mas é sobre isso também. Autoestima e amor próprio são os primeiros passos para vencer as barreiras das opressões. Como nos ensina nossa mais velha, bell hooks: “Honrar a nós mesmas, amar nossos corpos, é uma fase avançada na construção de uma autoestima saudável”.
 
AMA-SE!