Andrea Nogueira

07/11/2020
 
Ainda caçando as bruxas
 
 
Vivemos em tempos de rápida multiplicação de notícias através das redes sociais. E no pacote de informações cabem notícias falsas, notícias verdadeiras, exageros, amenizações e criatividade. Cabe também muita indignação. Isso porque ainda vivemos na era de relativizar ou justificar os crimes.
 
No campo da indignação, temos um tema muito comum à maioria das pessoas: o estupro.
 
O assunto incomoda homens e mulheres. É desgastante, dolorido e mexe com valores morais. E a internet é veículo mais utilizado para transportar opiniões e fatos sobre situações concretas.
 
Para ocorrer o crime de estupro são necessárias duas pessoas: a pessoa que estupra e a pessoa estuprada. Se a primeira pessoa citada aqui não quiser cometer o crime, a segunda fica indiscutivelmente impossibilitada de fazê-lo ocorrer. Mas ainda há quem argumente que a pessoa estuprada é a legítima responsável por influenciar o criminoso. Nesse sentido, passam a desenhar o estuprador como alguém frágil, sensível e extremamente incapaz de agir por sua própria conta diante dos fascínios da pessoa que ele estuprou.
 
O empoderamento feminino tornou muito comum as denúncias de violência sexual, mas as constantes tentativas de amenização do crime ou mesmo de sua desconfiguração, também contam com investimentos altos.
 
Não é de hoje que os “fascínios femininos” servem de argumento para desqualificar uma mulher, além de culpá-la por qualquer violação dos seus direitos. A caça às bruxas tão forte no século XVI ainda não terminou. Os pobres homens inocentes e frágeis diante dos feitiços do desejo e do amor continuam a invocar a proteção legal e moral após cometerem um crime. E muitos destes homens (pasmem!) conseguem apoio popular e apoio do Estado. Quanto às “bruxas”, restam continuar na luta pelo reconhecimento dos seus direitos e pelo enfrentamento de situações misóginas e machistas. 
 
Estuprador, estuprada, estupro. É necessário tocar no assunto, por mais que incomode.
 
Os “homens de bem” não querem sobre si a peja do crime. E muitos outros homens não querem sobre sua “categoria” a peja de que eles são capazes de cometer o crime. O resultado disso culmina para uma única direção: apontar a mulher como causadora do dano. Apontam para a mulher (a bruxa). Apontam para o feminismo (a bruxa). Apontam para a beleza e para o fascínio irresistível do tesão. Enquanto isso, o criminoso senta delicadamente no assento da vítima.
 
Nessa nova temporada de caça às bruxas é preciso continuar vigilante, combatente e resiliente. Afinal, não parece próximo o fim, especialmente quando nos deparamos com o Estado e uma parcela considerável da sociedade trabalhando pela justificação do criminoso.
 
Minha solidariedade à Mariana Ferrer! Sua dor também é minha.