Ana Paula Campos

09/11/2020
 
Por uma educação afrocentrada 
 
 
Quem me acompanha nas redes sociais vai me ver mudar muito de opinião. Ainda bem! Isso significa que tenho me aprofundado nas leituras e que não me fechei em verdades absolutas que muitas vezes não nos atendem mais. É seguindo essa linha de raciocínio que hoje acredito e defendo uma educação afrocentrada, e não mais antirracista. Explico. 
 
Durante anos discutiu-se a urgência de uma educação antirracista voltada para o enfrentamento e combate a um sistema de poder. Vivíamos em função de uma branquitude racista. A partir do momento de tomada de consciência racial, iniciamos um processo de militância que nos adoece e nos mata paulatinamente. Não estou aqui negando as lutas históricas dos/as nossos/as guerreiros/as como Aqualtune, Tereza de Benguela, Luiz Gama, e tantos/as outros/as. Estou dizendo que existem outros mecanismos de sobrevivência. Não dá para viver na defensiva sempre. Isso é danoso e pode nos enlouquecer. Não dá para educarmos nossas crianças lembrando a elas a cada 23 minutos que o ocidente as odeia, mas, ao invés disso, podemos torná-las cientes da potência do seu povo.
 
Vejamos o que nos contam nossos mais velhos:
 
“Quando uma mulher, de certa tribo da África,
sabe que está grávida, segue para a selva com outras mulheres
e juntas rezam e meditam até que aparece a “canção da criança”.
 Quando nasce a criança, a comunidade se junta
e lhe cantam a sua canção.
 Logo, quando a criança começa sua educação,
o povo se junta e lhe cantam sua canção.
Quando se torna adulto, a gente se junta novamente e canta.
Quando chega o momento do seu casamento a pessoa escuta a sua canção.
Finalmente, quando sua alma está para ir-se deste mundo,
a família e amigos aproximam-se e,
igual como em seu nascimento,
cantam a sua canção para acompanhá-lo na "viagem".
Uma criança que tem a sua identidade e subjetividade fortalecidas terá mais chances de se tornar um adulto com mais condições de lidar com experiências racistas de forma menos dolorosa. Ela compreenderá que o problema não está nela, mas sim no outro.
"Teus amigos conhecem a "tua canção"
e a cantam quando a esqueces.
Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes 
ou as escuras imagens que mostras aos demais. 
Eles recordam tua beleza quando te sentes feio;
tua totalidade quando estás quebrado;
tua inocência quando te sentes culpado
e teu propósito quando estás confuso.”
 
(Tolba Phanem)
 
Assim como nos rememora nosso filósofo Renato Noguera, que possamos cantar para nossas crianças sua canção desde muito cedo. Que toda a comunidade aprenda essa canção e cante junto. Que tenhamos nossas canções e entoemos nossas melodias em alto e bom tom. Que estejamos conectados com nossa cultura, nossos ancestrais, nosso povo e nosso espírito.
 
Precisamos conhecer o trabalho de Molefi Kete Asante e Elisa Larkin sobre afrocentricidade. Precisamos tomar consciência do nosso legado. Temos nossa cosmovisão. Sigamos! Somos nós por nós!