Daniel Costa

14/11/2020
 
TRISTEZA 
 
 
O vizinho coloca pra tocar Earl Grant cantando The End. Não é o fim do mundo. Mas depois de uma semana difícil achei mais prudente sacar da dispensa o Single Barrel que dormia aguardando alguma ocasião especial. É melhor do que cortar os pulsos na frente da família.  
 
Ligo o som. Bebo a primeira dose. Aumento o volume até que o piano de Kamasi Washington, levando Clair de Lune, se sobreponha à voz de Grant e tome conta do ambiente. É lindo. Mas não tem jeito. Também é triste pra caramba, assim como têm sido estes últimos meses.
 
Os tempos atuais são mesmo tristes. Tristes porque incertos. E parece que nos períodos de tristeza a angústia de viver chega mais forte. Talvez seja o medo do desconhecido. A percepção de que não sabemos de nada e de que somos apenas corpo e vaidade. 
 
Essa consciência da tristeza causada pela incerteza é que torna tudo mais difícil. Nenhuma coisa parece ser suficiente para aplacar a dor da espera de um futuro que demora a chegar. E que talvez nem sequer seja promissor. A espera é uma sensação terrível. Ela vai nos consumindo por dentro com uma força violenta. Só a chegada do momento esperado é capaz de detê-la. A espera no hospital por um ente querido que entra na sala de cirurgia; ou pelo amor que está longe, sem data certa para regressar. 
 
Nessas horas, dá uma vontade de voltar a ser criança. Procurar pelos velhos amigos, perseguir antigas e alegres vozes. Tudo em vão.  Sim. Ainda é possível ouvi-las. Perdido numa caverna escura seria capaz de reconhecê-las. No entanto, é só a lembrança de um outro tempo impossível de ser novamente vivido, como a peça perdida de um quebra-cabeça que nunca mais será completado. 
 
A espera, a incerteza e a tristeza, por outro lado, também podem ser o desejo do futuro. Um momento de inventividade, quando ainda é admissível, senão escolher o caminho, imaginar e sonhar com as possibilidades de uma nova estrada. 
 
O vizinho passa agora pela janela da frente, sem camisa e sorvendo três bolas de sorvete. Uma visão pantagruélica, que só é amenizada porque ainda restam algumas doses do scotch, e porque agora ele coloca na caixa de som uma versão de The Godfather tocada no acordeão de Richard Galliano. Quando terminar, vou emendar com Nino Josele. E depois correr para a cama na esperança de sonhar com novos caminhos de um amanhã menos triste.