Ana Paula Campos

16/11/2020
 
Prendam suas cabritas que meu bode está solto
 
 
Nem sei dizer quantas vezes ouvi essa frase ao longo da minha vida. O pior é que vinha justamente de outras mulheres que, a partir daí, tentavam justificar as atitudes dos seus filhos. Bom, não tenho filhos, mas sou a mãe da cabrita que querem que eu prenda. 
 
Penso que a coluna de hoje se destina, principalmente, às mães de meninos. Compreendo que machismo e heteropatriarcado são questões estruturais, e é muito difícil não reproduzirmos ou endossarmos posturas que colaboram para a manutenção do status quo, mas façamos um esforço para repensarmos tudo isso. Grande parte das crianças deste país é educada por mães e educadoras, afinal a função de cuidar sempre foi delegada historicamente às mulheres. Assim, somos nós que fornecemos a munição que será usada contra nós mesmas em um futuro próximo.
 
Quando panelinhas e bebês são as escolhas para presentear apenas meninas, estamos informando que a tarefa de cuidar da casa e educar os filhes é essencialmente feminina. Muitas mães privam seus filhos de aprenderem a cozinhar e cuidar do lar e quando estes se casam, elas esperam que suas esposas assumam tal responsabilidade. Mais que donas de casa e mães, meninas têm sido educadas para serem pajens de seus maridos. “Amor, você viu minha cueca?” Cozinhar, lavar, passar são obrigações nossas, e ao final da noite, ainda devemos estar belas, depiladas e disponíveis para a relação sexual ou, do contrário, “nossos maridos vão nos trocar por outra”.
 
Meninos crescem sem saber lidar com suas emoções, sem poder chorar, sem o direito de demonstrar medo e, quando adultos, tornam-se homens que ao enfrentarem o primeiro conflito, desmoronam ou partem para a violência. Isso sem falar dos meninos que enfrentam os conflitos de identidade de gênero na infância ou adolescência e em casa são lidos como pervertidos ou pecadores pelos olhos da família, sofrendo em silêncio.
 
Nós mulheres não somos suas parceiras. Somos propriedade privada. Aliás, se você está pensando em não ter mais filhos, é ele quem assina os papéis e dá a palavra final.  
Quantas de nós passamos a vida diminuindo quem somos para caber no mundinho de alguém? Quantas de nós buscamos um ombro amigo e choramos após o fim da milésima tentativa de relacionamento fracassado acreditando que éramos “pessoas difíceis de lidar”? 
 
Quando um homem diz que odeia feministas, não é sobre os movimentos que ele está falando. Sem sombra de dúvidas, quem diz isso nem leu nada sobre o assunto. Todo o ódio advém do fato de eles já perceberem que feministas não cabem nos moldes limitantes que a sociedade tenta nos impor. Nossa luta nunca foi para disputar espaços com homens. Tão pouco odiamos homens. Estamos exigindo o direito de coexistir com segurança.  Exigimos o pleno direito ao nosso corpo. Queremos respeito e igualdade de direitos.
Desde muito cedo converso com minha filha sobre seu corpo e quem está autorizado a tocá-lo. Virou rotina para mães de meninas estarem atentas às roupas que usam, modo de sentar ou atentas aos homens que se aproximam. Estamos constantemente alertas a qualquer sinal de perigo, quando nossa sociedade deveria estar educando os meninos para respeitarem nossos corpos.
 
 Quando advogados naturalizam estupros ou transferem a responsabilidade do ato às roupas ou poses sensuais das vítimas em fotos no Instagram, deveríamos parar e pensar quem autorizou este discurso? Mais que repetir nas redes que não existe estupro culposo, deveríamos estar atacando o problema na base da estrutura. Não estou deslegitimando o movimento com a hastag #nãoexisteestuproculposo nem estou transferindo a responsabilidade dos erros dos homens para suas mães. Aliás, não é isso que ocorre comumente? A “culpa” nunca é deles. É da mãe, da esposa ou até mesmo da desconhecida que estava “provocando com aquela roupa”.
 
O que estou pedindo é que estejamos atentas, ainda na infância, aos brinquedos, divisões das tarefas, discursos e práticas cotidianas. Se machismo, sexismo e homofobia são construções sociais, então podemos juntas pensar um modelo alternativo de masculinidades para todes nós.