Andreia Braz

16/11/2020
 
Retrato da educação brasileira
 
No último dia 08 de novembro, fui ao município de Goianinha prestar um concurso público para professor de língua portuguesa e fiquei impressionada, para não dizer indignada, com a situação dos banheiros da escola onde realizei a prova. O chão estava sujo, havia teias de aranha nas paredes, as portas estavam sem ferrolho. Algumas descargas estavam quebradas. As torneiras das pias, de péssima qualidade, estavam sujas. As pias, nem se fala! Detalhe: só havia um detergente para todos os candidatos lavarem as mãos. Não havia papel toalha para secar as mãos. 
 
Das cinco cabines, somente duas estavam em condições de uso, e numa delas a porta não fechava. E o pior de tudo: o banheiro destinado às pessoas com deficiência era o mais deplorável de todos: o vaso estava quebrado, a porta não tinha fechadura, ou mesmo um ferrolho. 
 
Fiquei pensando no constrangimento de um candidato com deficiência que precisasse utilizar aquele banheiro, não só no dia da prova do concurso, mas num dia comum de aulas naquela escola. Uma situação vergonhosa e revoltante saber que não há o mínimo de cuidado com esse público numa instituição que, além de servir de exemplo para as demais, deveria ser mais acolhedora e respeitosa com seus estudantes. Sim, porque estamos falando de uma escola pública da rede estadual de ensino.
 
Isso me fez pensar, ainda, na rejeição de muitos estudantes à escola e no elevado número de evasões escolares. A escola precisa ser, também, um lugar de acolhimento, de escuta, e não apenas um lugar onde se vai assistir aulas, fazer avaliações e garantir uma aprovação ao final do ano. A função da educação vai muito além disso. E a estrutura física da escola também faz parte desse acolhimento a que nos referimos, tão necessário especialmente aos estudantes que vêm de realidades socioeconômicas nada favoráveis e deveriam encontrar na escola esse espaço onde pudessem estudar com mais entusiasmo e se preparar para um futuro melhor, vislumbrando o acesso ao ensino superior e ao mercado de trabalho, formas de ascensão social ainda muito distante de milhares de jovens das periferias dos centros urbanos e de áreas rurais do Brasil.
 
A impressão que tive foi a de estar num lugar abandonado, e isso me fez refletir bastante sobre a situação da educação em nosso estado, que aliás não alcançou, em 2019, a meta do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e cujo resultado do ensino médio da rede pública está entre os piores do país.
 
Além da indignação que senti pelos alunos que frequentam aquela escola, fiquei me perguntando como algumas autoridades da educação têm a audácia de dizer que estamos em condições de retomar as aulas presenciais em meio à pandemia do novo coronavírus. E por falar nisso, fui proibida de levar folhas de papel toalha para secar as mãos após utilizar o banheiro altamente higienizado da escola. Mesmo mostrando aos fiscais e chefes de sala que as folhas estavam em branco e se destinavam única e exclusivamente à secagem das mãos, não pude levá-las comigo.
 
Senti vergonha da nossa educação naquele momento. Mesmo sabendo que há diversos professores e gestores trabalhando para melhorar a qualidade da educação do nosso estado, que há projetos literários incríveis sendo desenvolvidos em municípios como Parnamirim (“Parnamirim: um rio que flui para o mar da leitura”), por exemplo, que tem bibliotecas escolares muito bem equipadas e acolhedoras; senti uma profunda tristeza por saber que essa é a escola que milhares de crianças e jovens frequentam e é nesse tipo de ambiente que esses meninos e meninas estão se preparando para o futuro. Que futuro, aliás? Um futuro que em que crianças e jovens que saem desse tipo de escola e vão concorrer a vagas na universidade e no mercado de trabalho com quem teve acesso a um outro tipo de escola/educação? Uma educação que, aliás, deveria ser a educação de todos. Afinal, é isso que reza a Constituição Brasileira de 1988, em seu Artigo 205: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.
 
Quando terminei a prova fiquei do lado de fora da escola aguardando minha carona e notei que havia um homem também indignado com as condições deploráveis do banheiro da escola. Ele disse que sua vontade era filmar as instalações daqueles banheiros e colocar nas redes sociais. Entre outras coisas, nos perguntamos: de quem é a responsabilidade pela limpeza dos banheiros de uma escola onde é realizado um concurso público? De quem realiza o certame? Ou a da própria escola?
 
Não tenho resposta para essas perguntas, mas sei que a prova foi realizada pela Funcern (Fundação de Apoio à Educação e ao Desenvolvimento Tecnológico do RN) e pagamos R$ 120 pela inscrição. Além disso, paguei R$ 50 para ir até o local de provas, tendo em vista que moro em Natal. Um investimento relativamente alto para realizar a prova nas condições citadas.  Um lugar limpo e organizado seria o mínimo a ser oferecido aos candidatos que foram prestar o concurso para as cidades do Agreste potiguar.
 
Após a conversa sobre as instalações da escola, retomei a leitura de um livro de Walcy Carrasco, “Pequenos delitos e outras crônicas” (Moderna, 2015), o que aliviou um pouco minha indignação e trouxe de volta a esperança num futuro melhor para a educação. Coincidentemente, um dos textos da prova falava justamente na transformação/revolução que a leitura literária pode causar na vida dos estudantes. O artigo intitulado “A função social da leitura e da literatura para crianças e jovens” foi publicado em 2011 no jornal Le Diplomatique. 
 
Para Dolores Prades, a leitura literária, é “transgressora, livre e capaz de romper as barreiras do cotidiano e conduzir a mundos e universos novos. Só a literatura possui essa chave”. Afinal, é preciso “transmitir às novas gerações essa herança frágil, mas de alcance universal da literatura, essas palavras que nos ajudam a viver melhor”, como diz o filósofo e linguista búlgaro Todorov.