Ana Paula Campos

07/12/2020
 
E AGORA, MARIA E JOSÉ?
 
 
 
“Os brancos podem ficar do nosso lado nas questões pequenas, mas jamais nas fundamentais.” 
                                                                                                                                                     Malcolm X
 
 
Chegamos ao fim das eleições em todo o Brasil, e o resultado não mudou o fato de que os cargos de poder continuam nas mãos dos brancos, apesar do fato histórico de, pela primeira vez nas disputas para vereadora/o e prefeita/o, termos tido o maior número de pessoas negras. Esse fato por si só já revela que mulheres, sobretudo negras, estão rompendo com o estereótipo imposto socialmente de que “política não é coisa de mulher”. Fomos empurradas para cargos de cuidado que eram/são menos valorizados e remunerados. Mas essa conta não está batendo. Se pretos e pardos somam mais de 56% da população deste país, e quando pensamos o número de mulheres, vemos que também somos maioria, por que perdemos as eleições?
 
Penso que tudo isso é resultado de um conjunto de fatores, mas de modo algum por incompetência ou incapacidade de liderar. Vejamos...
 
Somos informados de maneira estrutural e constante que o grande salvador da pátria deve ser um homem branco, hétero e cis.  A sapiência, a capacidade de produzir ciência credível viria exclusivamente desse grupo iluminado. Quando somamos as opressões e temos como resultado uma mulher negra, periférica, LGBT+ e de terreiro, a leitura social sobre esses corpos é ainda mais discriminatória. O arranjo colonial nos informa não ser prudente confiar a gerência de um povo nas mãos de um público considerado inferior e incapaz.
 
Infelizmente, a esquerda deste país ainda investe pesado em candidaturas brancas, sobretudo masculinas, e usam negra/os como coadjuvantes para passar uma mensagem de antirracismo ilusória e pouco sustentável. 
 
O problema não está nos 56% da população localizados majoritariamente nas periferias. O problema é outro. Da periferia também ecoam vozes potentes de intelectuais, mas quem vai investir nessas vozes? Torna-se cada vez mais urgente que a esquerda se reúna com representantes das bases da população e elabore planos visando minimizar os efeitos do carrego colonial imposto por quase quatro séculos e que segue em curso. A esquerda precisa compreender que raça faz classe, e assim sendo, lutar contra o racismo deveria ser a pauta central de todas as candidaturas. Afinal, apenas desmantelando a base da pirâmide social é que podemos pensar em construir um modelo de sociedade mais equânime para todes. 
 
Parafraseando nossa incrível intelectual negra de Salvador, Carla Akotirene, “enquanto não derrubarmos esse sistema civilizatório trazido pelo europeu, as vidas negras jamais vão importar. Porque nesse modelo filosófico não cabe a importância negra. Seremos sempre ceifados.”
 
Mas não é o fim. Demos um passo gigante este ano. A semente está sendo plantada e a estrutura política desse país está sendo tensionada. Sigamos!