Théo Alves

13/12/2020
 
Notívagos, Beatles e a Casa Verde de Simão Bacamarte
 
 
Era mais difícil e solitário ser notívago nos anos 90. Sem as redes sociais e essa hiperconexão em que estamos metidos agora, os telefonemas e cartas eram os recursos mais fáceis para estarmos próximos de quem estava longe, ainda que absurdamente lentos se comparados à pressa ansiosa de agora. Além disso, os estímulos que movimentavam sinapses e ondas cerebrais também eram em quantidade bem menor do que hoje e a televisão, que ocupava papel vagamente parecido com o dos smartphones hoje, muitas vezes encerrava sua programação por volta da meia noite. 
 
Então, ainda que pudesse haver muitos notívagos, estávamos cada um em nossas casas sem a facilidade do contato imediato que temos hoje, sem saber que nossos pares eram sugados para dentro da noite assim como nós.
 
Em meados dos anos 90 eu era apenas um adolescente de comportamento difícil e pouco social, como são muitos adolescentes. Estudando à noite e naturalmente notívago, as horas acordado durante a madrugada serviam para ler, estudar, ouvir música com os fones de ouvido ou ver filmes. Claro que é preciso lembrar que não havia ainda streamings de tudo isso e as coisas estavam a uma distância muito maior que um clique. 
 
O gosto pela noite, a brisa agradável das madrugadas mansas de Currais Novos, a luz amarelada refletida nos paralelepípedos irregulares das ruas, a largura vazia das avenidas, os poucos carros adormecidos na frente das casas... isso compunha um cenário que a minha juventude inquieta e introspectiva adorava. 
 
Foram muitas as vezes que saía de casa às duas ou três da manhã para cumprimentar os cães e gatos de rua, além dos guardas noturnos que me olhavam desconfiados àquelas horas. O destino favorito era uma pracinha bem pequeninha recém construída ao lado da prefeitura e que, alguns poucos anos depois, perdeu a razão de existir. Costumava seguir para lá cantando baixinho Strawberry Fields Forever (foi o apelido que dei à pracinha bem pequeninha), dos Beatles,  com os livros que tomava emprestado na biblioteca perto de casa, sentava-me por um tempo sem abri-los, apenas tentando entender o mundo ao redor, vendo nascer toda a beleza que brota do silêncio nos lugares que não são naturalmente bonitos. 
 
Só depois de algum tempo abria os livros disposto a escandalizar o mundo que nem me notava. Assim, nessa pracinha bem pequeninha, li Fernando Pessoa e quase tudo de Machado de Assis. Meu deslumbramento com Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma de minhas obras favoritas até hoje, teve lugar naquele Strawberry Fields noturno. 
Imagino o quanto deveria ser tenso para as criaturas da noite – os guardas, cães e gatos – ver aquele rapaz armado com um livro em um tempo de pouca violência nas cidades do interior potiguar. Eu imaginava que eles me classificassem entre um potencial bandidinho ou um excêntrico, como manda a tradição das terras de José Bezerra Gomes. 
 
É preciso dizer, no entanto, que esse estranhamento se deu apenas nas primeiras incursões pelo campo de morangos. Com o passar do tempo e as visitas com alguma frequência, aprendi a perguntar as horas e fazer comentários sobre o tempo, sobre notícias do dia, sempre diálogos breves que serviam para demonstrar a pouca ameaça ao patrimônio público que eu representava. 
 
Assim, podia ler em paz e me recolher antes que o sol nascesse. No caminho de volta para casa, vez ou outra cruzava com praticantes de caminhada, que eram raros àquela época. Sair de casa especificamente para andar também já foi uma excentricidade, acreditem.
 
E se hoje é comum haver tantos notívagos, tantos insones, eu posso dizer que tive a sorte de não ter sido descoberto por algum Simão Bacamarte e sua Casa Verde, que os seres da noite não são criaturas bem reguladas da cabeça. Nem os de antes, nem os de hoje.