Ana Paula Campos

14/12/2020
 
VENCIDA PELO CANSAÇO
 
 
Não sou mulher de “caquiado”! Acho que até o fato de começar um texto assim, já sinaliza que não tenho “arrodeios”, não gosto de agarrados. Resumindo, não sou boa em demonstrar afeto. É estranho dizer isso hoje porque nem sempre foi assim. Sou do tempo dos papéis de carta. Eu costumava escrever cartas para os meus pais e amigues. Abraçava, beijava e dizia que amava a cada 10 minutos. Mas a vida me fez bruta. 
 
Precisei endurecer para aguentar as bordoadas do dia a dia. Hoje, além de marcas de expressão que revelam meu sorriso largo e alto, tenho rugas na testa que denunciam as minhas preocupações. Aliás, não é incomum ouvir da minha filha quase todo dia: “por que sua sobrancelha está com raiva?”. Sem perceber, fui substituindo o sorriso pela expressão sisuda. 
 
Giovana é meu oposto. Abraça e beija a todo instante e sempre que passa por mim, “conserta” minha testa. “Melhore a cara, mamãe”, diz ela afetuosamente com um sorriso. A cada 10 minutos, sei que ela me ama. A cada 10 minutos, recebo um beijo apaixonado. A cada 10 minutos, preciso abraçá-la por 10 segundos. Sim, ela me segura e diz “fique aqui!”.
 
Então, como se não bastasse todo esse “Love’s in the air”, surge na minha vida meu companheiro Fábio de Oliveira. Um dia sem nos vermos e seus olhos já estão brilhando pelo reencontro. Com fala sempre mansa, faz um afago no meu rosto cada vez que cruza por mim pelos cômodos da casa, o que eu sempre retribuo do meu jeitinho: “vai começar a frangagem?”. Ele ri. Gigi, que observa a cena de longe, também. Parece que estão fazendo só de pirraça: “vamos desmantelar a barreira afetiva da mamãe”. Estão conseguindo...
Mas antes de seguirmos aqui, nem pense em generalizar!
 
Nem toda mãe preta é como eu. Conheço várias que mantêm uma relação muito afetuosa com suas crias. Além disso, aceito o fato de que nós, mulheres negras, somos atravessadas pelo racismo e sexismo, mas o mito do negro violento foi criado pelo ocidente. Não é nosso. E não sendo, vários homens negros seguem na contramão, rompendo com esse estereótipo. Giovana Maria e Fábio vieram para minha vida a fim de ensinar o amor. Ainda que nem sempre a lição seja das mais agradáveis...
 
Vira e mexe, recebo um beijo no nariz. Ora de um, ora de outro. Beijos babados, vale ressaltar. E como alguém que está em processo de evolução, respondo: “MAS QUE INFEEEEEERNOOOOO!”.
 
Então, para finalizar, deixo aqui meu conselho para outras mulheres negras que, por ventura, sejam como eu. Aprendam a relaxar. Sei que pode parecer estranho receber carinho — logo nós, que fomos acostumadas apenas a cuidar —, mas esse deveria ser o normal. Permita-se viver histórias divertidas com suas crias e seu/a companheiro/a. Entenda, nós também merecemos amor!
 
Obrigada, Gigi e Fábio, por todo amor que trouxeram à minha vida e por me amarem como eu sou.